Alice Chala | Três da tarde

Procurei entre os móveis que coloquei para fora, num impulso de te achar ali, intacto, da forma que deixei. Num intento, corri para fora, procurei no chão pegadas, o café morno, o chá ainda em cima da mesa da cozinha. Não é engraçado? Tudo muda tão rápido o tempo todo. Eu não percebi. Mas já estava indo, sempre estive. 

Quando acordei essa manhã, me olhei no espelho, enxerguei histórias que jamais imaginei que seriam minhas. E hoje são. Belíssimas, preciosidades em minhas mãos. O que farei com tantas reticências? As que joguei para debaixo do tapete, as novas que batem à porta... 

Liguei ontem, era tarde, para dizer que às vezes as coisas são demasiado complicadas, e o que ouvi de ti foi uma repressão leviana dos meus lamentos. Três da tarde do sábado passado, questionei minha vida inteira e não encontrei respostas. E hoje, quis um novo roteiro, mas não quis escrevê-lo.

Os dias transformam-se através de cada pessoa nova que passa por nosso olhar, e que dirá aqueles que amamos… Ah, esses sempre terão algo de nós que será difícil compreender ainda nessa vida.
Duas da tarde de hoje, abri um livro, Hilda Hilst, e o verso era este:

Irreconhecível

Me procuro lenta

Nos teus escuros.

Como te chamas, breu?

Tempo.

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Compartilhe esta notícia:

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

A aposentada de botinha chinesa

Se aqueles anos de dureza profissional sugavam suas forças intelectuais. A espera da aposentadoria exauria sua paciência. De um lado a propaganda oficial do Instituto Nacional do Seguro Social, dizendo

Leia mais »

A Páscoa e o Jorge Amado

Era domingo de Páscoa. De um ano conturbado. Cheio de violências no mundo. Guerras e atrocidades. Enfim, algumas pessoas ainda lembravam de Deus. Um senhor com suas armas letais ameaçava

Leia mais »

Receba nossa News

Publicidade

Facebook