Ana D`Avila | A senhora da lotação

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A lotação seguia para o centro de Porto Alegre. No seu interior, poucos passageiros. Sentei-me na frente, próxima à janela. Na metade do caminho entra uma senhora. Era uma mulher pequena, usando óculos e uma bolsa quase maior do que sua própria figura.

Sentou-se ao meu lado. Eu falante, neste dia, estava calada – dia de reflexões -, mas ela puxou conversa. Na primeira tentativa de conversar, desconsiderei. Ela insistiu. Resolvi ouvi-la.

“Nasci em São Borja, terra do Jango… Casei cedo, aos 16 anos. Depois eu e meu marido mudamos para Porto Alegre, onde resido há muito… Tenho 73, sou viúva, meu marido morreu de ataque cardíaco… Éramos casados há 47 anos. Ele era uma pessoa muito boa. Ajudava todo mundo”.

Até aí uma história normal, de alguém normal, mas ela mostrou certos conhecimentos. Falou que era professora e que lastimava o estado em que a educação chegou em nosso País.

“Sou a favor da escola de turno integral. Lugar de criança é na escola”, concluiu (também penso desta maneira).  

Aposentada, ela dedicava seu tempo à leitura. Quando na ativa, lecionava História e Geografia. Sempre lia e gostava de fatos do passado.

“Para entender o presente é necessário conhecer o passado”, frisou.

Perguntei a ela o que estava lendo no momento.

“História, disse. Sempre História”.

Falou que estava achando muito interessante a história da Roma antiga. E do Imperador Nero.

Neste ponto, a lotação vinda da zona sul da Capital passa pela Usina do Gasômetro. A senhora estava indo visitar sua única irmã, que mora na Riachuelo. E outra vez, foi debulhando fatos da vida pessoal:

“Minha irmã nunca casou, tem 71 anos… Acho que meu pai foi muito rígido com a gente… Não podíamos namorar naquela época… Como ele dizia, ‘nos dar o desfrute’. Eu discordei de meu pai. Casei cedo, mas minha irmã não”.

A lotação chega, finalmente, ao Centro. A senhora desce, caminha devagar e entra no Mercado Público. Não perguntei seu nome. Nem o que compraria.

Seja lá como for, fez o trajeto ficar mais leve em um dia em que eu nem estava com vontade conversar. Ouvir faz muito bem, pincipalmente para quem escreve. O mundo está cheio de histórias e pessoas, notadamente. E eu sempre observo.

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