Ana D`Avila | Cama de hospital

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Volta e meia a porta se abria para a entrada do médico e das enfermeiras. Era um tempo de revitalização da saúde e problemas solucionáveis em meio a uma pandemia que ceifava vidas. No quarto, uma cama confortável, mas era uma cama de hospital, de recuperação física.

Não era uma cama de prazer. Era, algumas vezes, de até muito sofrimento.

Duas garrafas de água mineral, luvas de borracha e restos de um lanche dietético moldavam a pequena mesinha ao lado da cama. Acima, na parede, uma televisão desligada. Sem o gosto da informação, sem shows musicais, sem nada. Estava ali, somente enfeitando o quarto. Na seriedade, estava uma imagem do coração de Jesus, lembrando a fé que devemos ter.

Um sofá azul atravessado no quarto era destinado ao acompanhante do paciente, que se revezava em turnos com uma moça cuidadora. O enfermo era idoso. Do alto de sua idade constatou-se que ele tinha um problema no coração, o mesmo coração que amou a tantas mulheres, que inspirou tantos textos culturais e políticos.

Era jornalista, o melhor deles. Com suas filhas inesquecíveis: Sheila e Ana Paula, que o amavam, assim como as mulheres de dois casamentos um tanto neuróticos. O primeiro, acontecido na juventude, não o fazia feliz. O segundo, entretanto, era envolvido no doce mistério do prazer e das descobertas. Era intenso, de uma parceria única, que já durava quarenta anos.

Ao lado da cama, uma campainha para algum pedido de socorro à enfermaria, onde moças, rapazes e senhoras se envolviam com seringas e aparelhos para verificação de glicose, temperatura e pressão arterial. Elas se movimentavam, atuavam em plantões necessários e exaustivos. Ao final do dia, percebia-se nelas um cansaço expressivo. O paciente agitava-se, recebia remédios e a atenção de todos.

Pela janela daquele quarto se via a rua. Pessoas saudáveis passeando. Era domingo, e muitos iam à praia, tomavam sol, se divertiam. Dentro do Hospital, silêncio e preocupação, já que o bem maior de uma pessoa é sua saúde. Do contrário, não se vive, vegeta-se. E ali, em camas aprimoradas e adaptadas, passavam seres que tentavam recuperar a condição de viver – a verdadeira necessidade humana. Todo o restante não tem absolutamente, nenhuma importância.

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