Ana D`Avila | O homem irritado

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on telegram

Todas as crianças, pela graça da infância, são alegres. Risadas infantis são gravadas, enaltecidas e retratadas. Mas o homem irritado já nasceu sisudo. Aos cinco anos, quase sozinho, aprendeu a ler. Foi soletrando o título do Jornal da cidade:  E a partir dos jornais e dos livros, seu mundo se expandiu.

Apenas a irritabilidade permaneceu.

Aos 18 anos, já com um bom conhecimento literário, pensou em se mudar para Paris, terra da cultura, dos movimentos literários. Na França, um primo o aguardaria, mas a flecha do amor foi implacável com ele, e tal plano não aconteceu. Apaixonou e casou. Inexperiente, sem dinheiro e muito irritado, teve que iniciar sua vida amorosa e profissional. Assim, meio a contragosto.

Almejava a medicina, acabou jornalista. Por incentivo de outro primo, que era proprietário de um jornal brasileiro. Este, o incentivou por carreira na comunicação. Viveu os anos dourados do jornalismo, onde escrever era um ato de rebeldia. As redações eram quase artesanais, os jornalistas, sonhadores, boêmios e loucos.

Conheceu todos os infortúnios da vida. Histórias de gente que sofria e também das ricas e poderosas. Conheceu gente famosa. Da música, das artes, do cinema. E fez, ainda, carreira na Editoria de Polícia. Sensibilidade e irritabilidade eram suas marcas pessoais.

Não aguentando a pressão da redação numa área tão dura, acabou encontrando conforto no alcoolismo. Bebia diariamente. Neste espaço, escreveu matérias de toda ordem. Contou casos de assassinatos, de traições e de toda maldade humana. Ia assim, parecido com o escritor americano Bukowski, se tornando cada dia mais dependente do álcool. E também mais irritado com a estupidez da vida e seus infortúnios.

Aos 42 anos de vida, seu casamento desmoronou. Num ato enlouquecido, resolveu deixar o jornalismo e partir para as artes plásticas. No plantão da noite, com um lápis crayon preto e um caderno de desenho à mão, rabiscava amadoristicamente seus desenhos. A temática era sempre a mesma: arquitetura antiga.

A lembrança de um antigo casarão na cidade de Triunfo talvez fosse a causa desta paixão pela retratação de casas antigas. O casarão pertenceu ao seu Bisavô Floriano Ribeiro Barreto. Que era sobrinho de Luiz Ribeiro Barreto, Ministro da Guerra da República dos Farrapos.

Luiz Ribeiro Barreto, fundou ainda, o Teatro de Triunfo. O homem irritado passava todas as férias de verão neste casarão. Assim, ininterruptamente do primeiro ano de idade até os 17 anos.

Vivia assim, anos e anos de sua vida, profundamente inquieto e irritado. Qualquer contradição o fazia estremecer. Qualquer embaraço da vida, o fazia enlouquecer. Na idade madura, ficava horas sentado lendo. De tudo. Clássicos e literatura de muitos autores. Se lhe perguntassem o motivo de sua irritação. Ele respondia: "Viver no Brasil me irrita. Aliás, viver no mundo moderno, me irrita!"

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Share on facebook
Facebook
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Conteúdo relacionado

Ana D’Avila | A indecisa

Ela tinha pouca opinião, muitas indagações e uma única e perturbadora incapacidade de decidir. Tudo para Luzia era dúbio. E por ser assim, tudo ficava confuso e difícil. Diz o

Leia mais »

Receba nossa News

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Facebook