Ana D´Avila | A chuva e o vinho

Na rua a chuva caía abruptamente. Ninguém, a não ser ela, se aventuraria a caminhar por ali. Nenhum carro. Nenhuma pessoa em sã consciência enfrentaria aquela imensidão de águas dançantes. Quase todas as ruas nas imediações se transformavam em rios.E ela, atrevida e louca,se molhava a cada passo. Indo em direção a nada, dobrou a esquina.

No prédio uma janelinha  semi-aberta parecia esperá-la. Parecia enfeitiçá-la.Parecia chamá-la.Também sem um aparente sentido. Ela abriu o pequeno portão da entrada e tocou a campainha. Ligou o celular e deu uma piscada. Estaria o amigo em casa? Protegido da chuva. Ela não sabia. Teimosa e molhada clicou um número. Nem sinal de voz. Nem de nada.

Queria um ombro amigo para desabafar um dia complicado.Talvez tomasse um copo de vinho. Para esquentar e para sucumbir dos problemas que a afligiam. Já que a depressão naquele dia, a consumia. A vida, dia a dia, a estava transformando. Ela já não sabia se amava de verdade. Ou aquilo tudo era só sofrimento. Seguiu-se um clarão no céu.Depois um estrondo. Um transformador fez o poste tremer.

Hora de voltar para casa.Perigoso caminhar assim. Tomar uma providência.De repente, do nada, a janelinha entre-aberta se abre. Lá dentro uma figura muito interessante, a recebe sorrindo.Porque de uns tempos para cá, todas as pessoas  riam para ela. Ela era uma pessoa comunicativa,mística e alegre.Talvez ela atraísse,por este temperamento e energia, estas situações.

Um homem vestido de branco sorriu e abriu a porta do apartamento. Que bela visão! Que gentileza! Ela entrou e se aquietou. O apartamento era grande. Da sala e, no fundo do corredor dava prá ver um quarto. E no outro lado, um corredor que dava para a cozinha. Num dos armários muitos copos, pratos e xícaras.Sentada, descontraída conversou muito. Principalmente sobre o inverno e a chuva. Da assustadora enxurrada que  agora, tudo varria. Ela nem viu mais nada. A atração agora, era ele e o copo de vinho.Que foi, deliciosamente bebido.Que foi atrevidamente degustado em rara companhia. Ainda assim e lá fora, a chuva continuava caindo. (Ana D´Avila)

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