Ciclone não foi tragédia suficiente para negacionistas; O governador fraco

Centro Integrado de Comando e Controle monitorando de forma exemplar a atividade do Yakecan

Reputo a ‘não-tragédia’ do Yakecan – seja ciclone, tempestade ou o vento minuano – fez ‘avoar’ o negacionismo que andava constrangido entre os gaúchos após a ‘gripezinha’ da covid-19 matar mais de meio milhão de brasileiros.

No Grande Tribunal das Redes Sociais, gente de diferentes classes sociais, formações e ideologias, debochou das previsões meteorológicas e dos cuidados tomados por governos, poderes e iniciativa privada frente ao risco de ventos com força de furacão; que aconteceram, mataram e destruíram, mas não na proporção aparentemente necessária para ‘agradar’ alguns.

Usando um exemplo de ‘aldeia global’, saúdo os prefeitos de Gravataí e Cachoeirinha, que suspenderam aulas e mobilizaram defesas civis; e aqui deixo parabéns ao Vanderlei Marcos, coordenador em Cachoeirinha, pela seriedade com que tratou a ameaça à saúde pública. E também aos nossos empreendedores que liberaram funcionários e também foram para casa alguns minutos mais cedo na noite de ontem.

Lamentavelmente excluo o nosso governador Ranolfo Vieira Jr. do positivismo das autoridades preocupadas com a vida. Se não foi negacionista, foi fraco, ao ceder ao dinheirismo da Conmebol e permitir um jogo de futebol em um estádio na beira do rio, ao lado de um parque que tem pelo menos 5 mil árvores, no horário apontado como pico de um evento climático que cientistas com décadas de experiência alertavam ser perigoso, como o Seguinte: reportou em Ciclone pode trazer vento com força de furacão F1; ’Com 40 anos de Meteorologia, alerto: é muito sério o cenário’.

Ao menos nas bolhas que frequento nas redes sociais, além dos lacradores ‘do contra’, que independem de ideologia, de Bolsonaro ou Lula, identifiquei entre as críticas muitos que testemunho terem negado a pandemia e contestado as vacinas.

Parece-me representar um padrão. A desconfiança com a cientificismo. No caso, rebaixando uma ciência aplicada, como é a Meteorologia. Algo como crianças cuja mãe avisa para não ir fundo no mar de bandeira preta, e, como, hoje, nenhum amiguinho morreu, julgam catastrofista.

É o binarismo do ‘nós contra eles’, do ‘tudo ou nada’; fenômeno mundial.

– Diziam que a pandemia nos mudaria para melhor. Não vejo isso. É empatia quase zero – disse-me no domingo uma motorista de Uber (e pela sua atividade uma antropóloga na prática), reclamando de passageiros que não querem usar máscara, mesmo que, para chamar o app, tenham clicando em ‘aceito’ quando a plataforma pergunta se usarão a proteção.

Infelizmente, acho que acerta a menina.

O ‘caso Yakecan’ não ter provocado uma tragédia vai mostrar isso. Se no Japão alertas de evacuação para tsunamis são atendidos e, acontecendo ou não, seguem sendo respeitados, aposto que em Porto Alegre podem avisar que uma onda gigante vem pelo Guaíba que o pessoal vai para orla; e não acredita mais.

Ao fim, associo-me à sequência de tuítes da MetSul, que mostrou ser mais precisa que o sistema nacional de meteorologia, para sustentar cientificamente meu artigo. Reproduzo abaixo o furacão de acertos; e preciosos alertas. Para acessar a postagem original, e comentar, clique aqui.

“…

💨🌀 THREAD | Há críticas nesta quarta à previsão do tempo pelo ciclone. Críticas são sempre bem-vindas e legítimas desde que fundamentadas em dados objetivos. Como nossa relação com vocês do público é de transparência, analisemos o que foi previsto e o que ocorreu (ou não).

1. Que seria um ciclone atípico de natureza subtropical e posteriormente tropical. Ocorreu! Sistema foi batizado pela Marinha de tempestade subtropical Yakecan e apenas sistemas anômalos (subtropicais ou tropicais) são nomeados na costa brasileira.

2. Que o sistema seria intenso na costa com pressão atipicamente baixa. Ocorreu! Pressão ontem no centro do ciclone era de 990 hPa, o que é muito raro de ocorrer em latitudes de 30°S.

3. Que o sistema se moveria do mar para o continente e margearia a costa gaúcha de Sul para Norte, aproximando-se mais do litoral na área de Mostardas, e recurvando na direção Leste de novo na altura do Sul de Santa Catarina. Foi exatamente o que ocorreu!

4. Que o Sul e o Sul e o Leste do Rio Grande do Sul seriam as áreas mais atingidas. Ocorreu! Que a área mais castigada na costa seria entre a região de Mostardas e o Sul do Litoral Norte com menos impacto entre Capão e Torres. Foi exatamente o que ocorreu!

5. Que em Porto Alegre o vento, em média, ficaria entre 80 e 90 km/h com até 100 km/h no extremo Sul junto à lagoa, não muito diferente de outros ciclones de anos prévios. Foi o que ocorreu. Zona Norte teve 75 km/h e área central e orla acima de 80 km/h por relevo e topografia.

6. Que o vento na costa atingiria 100 a 120 km/h e localmente acima. Foi o que ocorreu com base na análise dos danos nas praias mais atingidas. Estações oficiais costeiras do governo estão sem enviar dados há semanas.

7. Que o vento na borda da Serra e nas montanhas de SC poderia ficar entre 100 e 150 km/h. Cambará do Sul teve 106 km/h. Morro da Igreja atingiu 126 km/h. E o mirante em Bom Jardim da Serra teve rajada de 157 km/h.

8. Que o vento no Sul de Santa Catarina poderia passar de 100 km/h. Foi o que ocorreu. Estação do Ciram em Siderópolis anotou mais de 100 km/h.

9. Que o vento mais forte no Sul gaúcho seria à tarde. Ocorreu! Pico de 97 km/h em Rio Grande foi às 17h. Que no Litoral Norte seria à noite. Foi o que ocorreu. E que no Sul de Santa Catarina seria na madrugada de hoje. Foi o que ocorreu.

10. Que ciclone não é temporal. Temporal dura minutos e é isolado. Ciclone traz vento forte por hora em campo de centenas de quilômetros. Foi o que ocorreu. Porto Alegre, por exemplo, teve vento de 50 km/h a 80 km/h quase a terça-feira inteira.

11. Que chuva extrema, como às vezes ocorre em ciclones, não era preocupação ontem pelo rápido deslocamento do sistema de Sul para Norte. Foi o que ocorreu.

12. Que não seria um furacão na costa gaúcha, possibilidade cogitada em coletiva federal em Brasília na segunda à noite. Não formou furacão!

13. Que era uma tempestade subtropical que oferecia risco de vida pelos seus impactos. Duas pessoas morreram durante a sua influência.

14. Que haveria destelhamentos, queda de árvores e postes, e colapso de estruturas como placas pela força do vento. Ocorreu! No Litoral Sul, no Litoral Norte, em Porto Alegre e até no Leste da Serra.

15. Que haveria significativo impacto na rede de energia, sobretudo na área da CEEE Equatorial. Foi po que ocorreu! 220 mil clientes estavam sem luz ontem à noite ou cerca de 700 a 800 mil gaúchos com cidades inteiras na costa no escuro.

16. Que haveria forte agitação marítima e risco de naufrágio de pequenas embarcações no oceano e/ou Lagoa dos Patos. Foi o que ocorreu. Um homem morreu em naufrágio na zona Sul de Porto Alegre.

17. Que antes de afetar o Rio Grande do Sul, o ciclone traria vento acima de 100 km/h no Uruguai. Foi o que ocorreu! Segundo o Inumet, órgão oficial de Meteorologia uruguaio, vento atingiu 98 km/h em Maldonado e passou de 100 km/h na costa de Rocha.

18. Por fim, a nossa função é prever o tempo e comunicar riscos. Decisões sobre decretar suspensão de atividades por prevenção são de competência do Poder Público dentro do sistema de Defesa Civil (municípal, estadual e federal) que possui seus próprios serviços de Meteorologia.

…”

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