City de Guardiola e o tributo eterno ao Futebol

Vencer é o verbo mais valorizado na Arte de Chutar a Bola. Entretanto, não basta apenas a superioridade no placar final.

Triunfar com “justiça” e “merecimento”, sim, justifica a festa no lugar mais alto do pódio. Em resumo, ganhar e encantar é digno da prateleira da eternidade.

Pois bem, senhores e senhoras…

Enxergo futebol sob esse prisma, com essa utopia. Vitórias caídas do céu, feito aborto da natureza. Zagueiros ou volantes reféns do físico e do chutão. Treinadores que abdicam de jogar mesmo tendo um elenco propício para tanto. A vocês, registro meu desprezo futebolístico. Gosto não se discute, né?

Guardiola foi forjado na derrota da Hungria, em 1954; da Holanda 20 anos depois e do Brasil na Copa da Espanha, em 1982. Foi forjado nas próprias derrotas liderando o Bayern de Munique e o próprio City — vide ano passado contra o pragmático Real Madrid de Benzema, Vini Jr e Rodrygo com Y. Mesmo perdendo, porém, jamais se curvou ao futebol mesquinho. Eis o mérito!

“Sem Messi, Guardiola jamais ganhará a Champions”, vociferavam alegres os críticos a cada insucesso. Oportunismo rasteiro e/ou erro de leitura. Embora os elencos repletos de estrelas, é mais do que visível a “mão” de Guardiola em todos os times que dirige. Sem nenhuma concorrência à altura. Há tempos! Perdendo ou ganhando. No Bayern, por exemplo, promoveu uma mudança cultural histórica. No Barcelona, títulos com desempenho em profusão tendo Messi como a cereja do bolo!

Pelos ingleses, sonhada conquista com o craque do time — Kevin De Bruyne — deixando o jogo ainda na etapa inicial, lesionado. Prova inequívoca de um time que não é refém de suas individualidades, pelo contrário: é a estrutura coletiva que potencializa os nomes. Único brasileiro em campo, o goleiro Ederson foi um dos destaques da finalíssima, desta feita, quando o coletivo já havia sido superado.

Marcação avançada. Triangulações, pressão após a perda da bola. Posse, mas também contragolpe. Tabelamento até às redes ou bola aérea ofensiva. Conceitos que tornaram o City competitivo e também entregaram espetáculo no aspecto estético ao longo da temporada. Na final, capacidade de competição. Tricampeã, a Internazionale honrou e muito a conquista, ilustrada pela aula de negação de espaços típica da Escola Italiana.

Voltando aos campeões…

O zagueiro Stones transformado em volante com a posse de bola — ano passado era o lateral Cancelo que cumpria a tarefa tática. Tudo em busca da superioridade numérica no setor onde se ganha, se perder e se empata: a meia-cancha. Rodrigo, primeiro volante, pisando na área como um meio-campista moderno, para enlouquecer os dinossauros e garantir a “Orelhuda”.

Bernardo Silva colocou o jogo no bolso! Com Pep, já atuou como ponta, como falso 9, como meia, como volante e até como lateral-esquerdo. O português é o exemplo de um futebol sem receita pronta, explorando o máximo das individualidades e ampliando o repertório coletivo. Futebol com F maiúsculo. Puro suco do treinador que revolucionou o esporte.

Ederson. Walker/Akanji. Stones, Ruben Dias e Aké. Rodri, De Bruyne/Foden e Gundogan. Bernardo Silva, Grealish e Haaland…

Campeão da Tríplice Coroa. Primeiro lugar do pódio na Copa da Inglaterra, medalha de ouro na Premier League e dono da Europa na Champions League.

Não existe nada mais forte do que uma ideia cujo tempo chegou. Demorou, mas o Futebol Além do Resultado voltou a dar as cartas no Planeta Bola.

O City de Guardiola acaba de prestar um tributo eterno ao futebol. Fez história e não apenas por ter vencido.

Que seja o início de um caminho sem volta…

Obrigado, Pep!

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