Segunda, 10 de AGOSTO de 2020

Publicidade

Facebook

3º Neurônio | ideias

Max Weber, de perfil e com barba, em Munique em 1919

Preservar vidas ou retomar a economia? Ética de Weber para tempos de pandemia

por Fernando Vallespín | El País | Publicada em 16/06/2020 às 00h| Atualizada em 24/06/2020 às 23h41

As reflexões do filósofo alemão, cuja morte completou 100 anos no domingo, continuam muito vivas. O Diário de Viamão reproduz o artigo publicado pelo El País.

 

No domingo 14 de junho completa-se cem anos da morte de Max Weber, provocada por uma pneumonia após infectar-se com a gripe espanhola. O ilustre professor mal poderia imaginar que comemoraríamos seu centenário em meio a uma pandemia semelhante. Porque Weber, o clássico entre os clássicos das ciências sociais, o inquieto elaborador de teorias e forjador de conceitos, nunca deixou de acreditar nos avanços das ciências e no progresso. Ainda que tenha feito à sua maneira, revelando suas muitas ambiguidades e ambivalências.

Sua tese central sobre o desenvolvimento do mundo moderno já é ensinada no começo do curso de sociologia. Modernidade equivale à racionalização de todos os processos sociais com a finalidade de resolver da maneira mais eficiente possível questões de natureza prática. E racionalização se conjuga com industrialização, burocratização, especialização, secularização, avanço do capitalismo. Mas também com coisificação e desumanização, porque esse processo conduz à destruição do “jardim encantado” das religiões e concepções do mundo pré-modernas. Aparecem novas esferas de valor —ciências, direito, ética, estética, religião... —, cada uma com suas próprias regras, que já não podem se integrar em uma unidade e nos provocam uma espécie de estranhamento existencial.

O efeito de todos esses processos é, pois, o “desencantamento” (Entzauberung, em alemão) do mundo. O que antes se via como o resultado de poderes e forças misteriosas e ocultas é suprido agora por um saber científico-técnico sistemático. Graças à ciência e à tecnologia sabemos cada vez mais sobre o mundo que nos rodeia, este se enche de formas de organização e engenhos técnicos dos quais fazemos uso cotidiano, mas que, com exceção do caso de cada especialista, não compreendemos. Usamos o metrô e o computador, mas na verdade ignoramos como funcionam; ocupamos um alvéolo em uma imensa organização burocrática, mas sua racionalidade interna escapa de nosso entendimento. Ou seja, nos sentimos incorporados a uma ordem —um dispositivo, como diria Foucault—, que marca suas leis por toda parte, mas ao que não encontramos o “sentido”. Os avanços produzidos pela racionalização do mundo também são acompanhados por uma perda.

Vamos nos deter um momento nisso, porque é aqui que se encontra um dos aspectos mais interessantes de seu diagnóstico. Em dado momento Weber nos diz: “A imagem da ciência é a de um reino transmundano de abstrações artificiais que tentam apresar com suas mãos secas o sangue e a seiva da vida real sem chegar a apresá-la. E quando afirma que a ciência não pode dar respostas à “única pergunta importante para nós, o que devemos fazer e como devemos viver”. Todos os aspectos da vida social aparecem formatados por esse processo de racionalização que reproduz o modelo de um aparato burocrático, hierárquico, organizado por especialistas. E um mundo construído a partir de uma racionalidade instrumental abstrata e distante poderá nos garantir a eficiência, e não o sentido da vida. O resultado é a alienação do mundo, e esta nos conduz ao conformismo. Dentro desta “jaula de ferro” a liberdade perde sua dimensão de autonomia e se transforma em rotina.

Weber une essa descrição a uma importante consequência política, que acabaria se tornando profética. O perigo de sujeitos isolados e alienados em uma sociedade de massas burocratizadas e seu possível salto ao irracionalismo: “os velhos deuses se levantam de suas tumbas” e recomeça a velha luta entre eles. De acordo com a postura básica de cada qual, uns serão deuses e outros demônios. “E a pessoa deve decidir qual será Deus para ela e qual será demônio”, já não há uma instância racional com capacidade para nos orientar nesse incomensurável pluralismo de valores. E que se pretenda compensar a perda do sentido seguindo cegamente um líder. Não podemos nos esquecer que nosso autor vive no período anterior à República de Weimar em um ensurdecedor ambiente político.

É quase inevitável levar algumas dessas reflexões à sociedade tecnocrática e hipertecnológica de nossos dias. À luz de seu diagnóstico, o atual ressentimento à ciência, o ceticismo à verdade e à objetividade dos fatos, a proliferação de teorias conspiratórias, seriam nossa forma de reação frente a essa nova sociedade digital. É possível que sua melhor encarnação seja o populismo, com sua guinada ao maniqueísmo ―eu sou Deus, você o diabo— e a priorização da emoção sobre a cognição. Por isso nos é tão estimulante reler hoje seus textos de caráter mais marcadamente político, tão inclinados a abrir um caminho racional, “científico”, a esse mundo tão propenso à irracionalidade ideológica, e introduzir uma ordem conceitual no ainda precário âmbito dos partidos, líderes e processos parlamentares, o cenário do poder. E pode ser que resida aqui o mais importante, suas reflexões sobre os atributos que deveriam acompanhar a liderança e ética em que esta deve se apoiar. Definitivamente, o que encontramos nessa joia que é sua conferência sobre a política como profissão/vocação.

A distinção que ele introduz aí entre ética da convicção e ética da responsabilidade já é bem conhecida, mas é difícil imaginar outra que capte melhor a natureza dilemática da ação política, como o decisor político se vê sempre preso entre os mandatos da moral e as demandas de uma realidade sempre sujeita a contingências. Sua opção pela ética da responsabilidade, a de levar sempre em consideração as consequências de nossas ações —a outra, a da convicção, seria uma ética “extramundana”, não suporta a “irracionalidade ética do mundo”— já se transformou no paradigma em que, pelo menos em teoria, se inspiram os grandes políticos. Mas algumas vezes, nos lembra o professor, não podemos ignorar os mandatos morais absolutos, o “eu estou aqui, não posso fazer outra coisa” de Lutero. As duas éticas não estão em oposição absoluta, devem tentar se conjugar, e “somente juntas fazem o autêntico homem, esse homem que pode ter ‘vocação para a política’”.

Nisso Weber não estava desorientado. Pudemos experimentar no momento de precisar tomar decisões difíceis durante a pandemia, preservar vidas e restringir direitos em troca de reduzir nosso bem-estar econômico. Às vezes o que são consequências “desejáveis” se chocam com a aplicação de meios aceitáveis. Por isso Weber se preocupava tanto com “o tipo especial de ser humano” a quem entregamos o exercício do poder, o tipo de homem “que se deve ser para colocar suas mãos nos raios da roda da história”. Temo que já nos esquecemos desse último ponto.

Cristiano Abreu

Redação, sugestão de pautas e redes sociais
51 9 9962 3023
[email protected]

Rafael Martinelli

Editor
[email protected]

Roberto Gomes

Diretor
[email protected]

Ao reproduzir uma de nossas matérias, é ético citar a fonte.
As opiniões assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a posição do jornal.
Desenvolvido por i3Web.
2016 - Todos os direitos reservados.

Rua Osvaldo Aranha, 43 - Sala 5 - 94410-630 - Centro - Viamão - RS