Quinta-feira, 29 de OUTUBRO de 2020

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Opinão

Claudio Brasil | Quem nos dera...

por Claudio Brasil | Publicada em 27/07/2020 às 00h| Atualizada em 27/07/2020 às 11h47

Um dia acordou. Simples assim. De um longo sono. Quão longo? Não saberia dizer, mas o suficiente para permitir que seus primeiros cabelos brancos, outrora completamente negros, começassem a surgir. Assim como os primeiros fios brancos de sua barba. Estranhou, inicialmente, sua imagem diante do espelho, mas não chegou a ficar triste.

Seu rosto havia mudado. A aurora de sua juventude havia se passado em vão. Às cegas. Desde seus 20 anos estivera sobre uma cama de hospital. Quanto tempo isso realmente representava? Era relativo. Um triste acidente foi o responsável por seu sonolento destino. Coma induzido. Mas estava vivo, ou seja, a tragédia não havia se realizado completamente. Soubera desde logo que seu filho também sobrevivera.

Envolvera-se em uma forte colisão de trânsito. Dirigia quando seu carro que se chocou contra um ônibus. No veículo, apenas ele e seu filho. As memórias voltavam a brotar lentamente em seu cérebro. E naturalmente sua curiosidade a respeito das pessoas que amava e sobre seus destinos começava a brotar. Acordava lentamente. O hospital estava fazendo contato com familiares, os quais já tinham sua recuperação como perdida. Seria uma surpresa a todos a notícia de que ele havia saído de seu sono profundo.

“Hei, realizamos contato com sua família. Ele já está vindo pra cá. Seu filho. Ele deve chegar em 20 minutos”, sussurrou ao seu ouvido a enfermeira que lhe prestava cuidados e que erguera o espelho para que o paciente pudesse rever seu rosto. Desde o ano 2000 estivera em coma. Acordara em 2020. Quanta coisa haveria mudado no mundo? O quanto precisaria aprender a respeito das pessoas, agora vinte anos mais velhas? Sentimentos confusos.

Apesar da ansiedade, pensou, “o que é 20 minutos para quem esperou 20 anos para acordar...”. Olhou pela janela. Poucas pessoas circulavam pelas ruas. Mas o estranho é que todas estavam mascaradas. A cidade, observada da janela do quarto, parecia um grande hospital. Por quê? Estava curioso. O ano 2000, quando se acidentara, era tido por muitos como o ano final da raça humana. Pragas, catástrofes, guerras, eram previstas para aquele período fatídico. Mas nada daquilo ocorreu. Afinal ele estava ali. A Terra estava sob seus pés.

Passados 20 minutos, a visão de seu filho abrindo a porta foi mais uma imagem chocante. Ele tinha apenas dois anos à época do ocorrido. Mas agora já era um homem. Um homem jovem, pouco mais velho do que ele mesmo quando perdera a consciência e adentrara o coma profundo. Seu filho também estava de máscara. Um som incrédulo surgiu abafado pelo tecido que obstruía seus lábios. “Pai! Sou eu. Seu filho. Quanta alegria em revê-lo.”.

O paciente olhou para aquele homem e viu a si mesmo. As sobrancelhas proeminentes, os olhos de um azul profundo. Abraçaram-se. Longos anos haviam se passado. Muitas coisas precisavam ser ditas. Abraçaram-se outra vez. Olhou de perto o rosto de seu filho amado e novamente viu seu próprio rosto.

“Diga-me garoto. Em que mundo estou? Desde que acordei, tenho notado que as pessoas andam de máscara pelas ruas. Nunca imaginei que a poluição nos levaria a esse ponto. Lembro que no ano do triste acidente, o fatídico ‘Ano 2000’, esperávamos que o mundo acabasse. Pelo menos era o que se dizia, ou melhor, o que diziam as profecias.”

“Verdade pai”, consentiu o filho. “Mas o problema que enfrentamos agora é outro. As pessoas atualmente precisam usar máscaras porque passamos por uma terrível pandemia. Pior do que aquelas previstas para o ano 2000”, explicou ao pai, enquanto o ajudava em uma pequena caminhada pelo quarto.

“Explique, por favor”.

“Sim pai, assim que sair daqui do hospital terá de se acostumar a utilizar essas máscaras. Estamos de quarentena e existem muitas restrições. Não podemos sair às ruas sem ter de nos defrontar com o vírus que se espalha pelo ar. Chamado de Coronavírus, causa a morte por insuficiência respiratória de forma muito veloz e sofrida. Mais de 2 milhões de casos confirmados no Brasil. Atualmente são cerca de mil mortos por dia por aqui. Uma tristeza absoluta. Sem bares, sem parques, sem futebol, apenas distanciamento. Ano 2020, chamado o ano macabro”.

Olhou nos olhos de seu filho de forma severa, depois com ceticismo. “Pai, você precisa descansar. As visitas também estão restritas. Mamãe está infectada e não poderá vir ainda. É muito bom tê-lo de volta.” O filho sorriu e partiu. O pai sentou à cama, incrédulo diante de tantas novidades. Os 20 anos passados à cama levaram-no ao final dos tempos. O 2020. Fechou os olhos e deitou-se. “Vou voltar dormir, melhor assim”.  

Subitamente acordou de um sono pesado. Ansioso, correu às janelas e viu as pessoas felizes e andando nas ruas. Sem máscara. O sol brilhava e as crianças brincavam nas calçadas. Na televisão, praias lotadas. Seu alívio foi monumental. Tranquilamente, seu filho de dois anos dormia ao lado de sua esposa. Olhou o sol e pensou. “Todas essas crendices sobre o fim do mundo... Nunca chegaremos a esse ponto. Até porque hoje é 1º de janeiro de 2001. Já passamos por nossa provação...”

Quem nos dera, leitores... quem nos dera...

Cristiano Abreu

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