Quinta-feira, 29 de OUTUBRO de 2020

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Crônica

Ana D`Avila | Olhos hodiernos

por Ana D`Avila | Publicada em 25/08/2020 às 00h| Atualizada em 25/08/2020 às 13h50

Observando o espelho, ela se preparava para sair. O batom, desnecessário. A boca estaria encoberta pela máscara cirúrgica que ela, tão atenta, comprou na farmácia em porções gigantescas. A caprichada agora era nos olhos. Muito rímel, lápis com escovinha, num desenho quase artístico que culminava com um leve toque de sombra marrom, enaltecendo o olhar. Era o novo visual. Hábito de uma nova época.

Os cabelos, puxados para trás num coque samurai, atenuavam sua testa e sobrancelhas. Na mochila, um vidrinho de álcool gel, invés de seu costumeiro Carolina Herrera de bolso. Pela rua, poucas pessoas. Todas com máscaras. Caminhava rumo ao centro sem a certeza de que as lojas estariam abertas. Sem a certeza de como seria o futuro do mundo.

O novo normal sintetiza-se num tal de abre e fecha ainda não entendido. Uma loja abre, outra fecha. Vá entender o comércio, a área econômica. Vá lá saber de quem é a culpa da contenção ou da esculhambação.  Mas “se for para o bem de todos e a felicidade geral da Nação”, que abram. Ou não. Li isto num amarelado livro de história. Não exatamente nesta ordem.

Surpresa! Elas sempre acontecem. O café preferido da cidade está de portas abertas. Evidenciando na entrada um grande frasco de álcool gel. Garçonetes de máscara. E lá dentro, um civilizado som dos Beatles. John Lennon cantava uma música doce. De quando o mundo fingia ser doce. Depois dos Beatles poucos ou ninguém fez tanto sucesso cantando musicas doces. Como “Imagine”, que agora se revivia na cafeteria. Até rimou.

Ali no café, parecia que a pandemia nem existia. Seria a realidade convertida em bem. Mas não é assim. A doença continua corroendo e amedrontando: mesas afastadas e apenas três clientes. Habituados cafeteiros, que costumam lotar o salão, com seus jornais impressos e gostosas taças de cafés com leite. O dia era de sol, mas fazia frio. Era agosto. Como deixar de beber um cafezinho? Café é bom até na pandemia. Haja espaço, haja gosto e haja, principalmente, cuidados.

Um lembrete: já que esquecemos do batom, caprichemos nos olhos. É para eles que o mundo agora se volta. Através deles se demonstra medo, amor e afeto. Eterno espelho d’alma, já dizia o poeta. Das noites de festas e de luas enluaradas. Agora o foco é nas pupilas.

Bocas e batons estão em desuso. Não se destacam mais. Cá prá nós, existe coisa mais sem graça do que boca sem batom? Tempos “bicudos”, diria o poeta Mário Quintana, provavelmente, olhando para Bruna Lombardi: sua fervorosa amiga de incríveis olhos esverdeados. Por certo, Quintana estaria encantado e feliz. (Ana D´Avila)

Cristiano Abreu

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