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Opinião

Sankofa Viamão | Indígenas e africanos em sala de aula

por Ígor Andrade Cardoso | Publicada em 12/10/2020 às 00h| Atualizada em 12/10/2020 às 15h47

A conversa de hoje é sobre Cultura e História Africana e Indígena em sala de aula. Essa questão vem sendo discutida desde a redemocratização do país, sendo atualmente regida pela Lei 11645 de 2018, que classifica como obrigatório o ensino das Culturas Africana e Indígena nas escolas brasileiras.

Porém, a lei ainda possui limitações em diversos fatores, dentre eles a falta de formação que as universidades e escolas brasileiras possuem, com governos, administradores e professores ainda não tendo o preparo necessário para trazer as garantias da lei de forma adequada para as salas de aula do país.

lém do mais, a falta de preparo não é o principal problema, e sim a resistência de algumas pessoas para aprender, buscar o aperfeiçoamento profissional e adquirir capacitação para aplicar a lei. Alguns professores acreditam que fazendo algo no Mês da Consciência Negra (novembro), estão cumprindo a lei, enquanto, na verdade, os assuntos deveriam estar inseridos durante os conteúdos administrados durante o decorrer do ano letivo.

A educação brasileira tem sido predominantemente eurocêntrica. Se fizermos um estudo dos currículos abordados ao longo do tempo nas escolas brasileiras, veremos que nossa educação, mesmo após o advento da lei 1645 em 2018, dá elevada importância aos acontecimentos históricos e culturais da Europa, sendo que a própria História do Brasil é mostrada sob o ponto de vista dos portugueses que fizeram uma colonização de exploração na parte meridional do continente americano.

Desse modo, os indígenas aparecem nos conteúdos com professores fantasiando os alunos no mês de abril ao invés de discutir suas questões culturais e os africanos são abordados quando se trata de escravidão ou, no máximo, no conteúdo de Egito, que boa parte das vezes é abordado como uma civilização branca, devido à influência dos filmes hollywoodianos. Além disso, a Cultura Africana é abordada superficialmente no mês de novembro, com professores fazendo trabalhos como máscaras africanas sem, na maioria das vezes, os alunos entenderem o motivo de confeccioná-las, o significado delas ou a qual povo africano elas pertencem – já que a África é um continente multiétnico e multicultural.

É necessário ressaltar que os profissionais da educação, apesar de haver resistências de alguns, não são todos culpados, pois ainda existe essa lacuna inclusive nas melhores universidades do país. Por exemplo, esse que vos escreve poderia ter adquirido diploma universitário sem ter feito sequer uma cadeira sobre História Africana ou Indígena.

Quando cursei a graduação na primeira década do século 21, as disciplinas que abordavam esses assuntos ainda eram eletivas, ou seja, eram parte de um grupo de diversas disciplinas nas quais o graduando poderia optar por cursar outras e obter o diploma de licenciado ou bacharel em História sem trabalhar com pesquisa de algo específico sobre África ou mesmo sobre os povos indígenas. Isso sem contar que o fato de a disciplina não ser obrigatória, pode fazer com que a universidade não precise oferecer a disciplina para seus graduandos, o que acontece muitas vezes, inclusive por falta de profissionais com conhecimento adequado sobre esses assuntos.
Evidentemente, a universidade ainda está vivenciando um processo de desenvolvimento de pesquisas sobre essas temáticas, sendo isso necessário para que as disciplinas sobre indígenas e africanas possam obter uma progressiva obrigatoriedade.

Outro elemento importante é o livro didático, que muitas vezes servem como importante elemento de auxílio para professores e alunos. Apesar de ainda não serem os ideais, os livros vêm melhorando bastante com o passar do tempo. Na disciplina de Geografia, o continente africano não aparece apenas como um local de fome e desigualdades, ocorrendo também a abordagem cultural positiva do continente. Ou seja, embora seja importante falar sobre os problemas africanos, que são incontáveis, é imprescindível também abordar que a África possui ótimos lugares turísticos além de cidades mais bem organizadas do que muitos municípios brasileiros.
Já na disciplina de História, os livros didáticos têm mostrado a África além do Egito, fazendo uma amostragem interessante de como eram os povos mais ao sul da África, além da ênfase nos núbios e nos reinos Cuxitas, embora ainda tenhamos poucas fontes sobre os povos da África Subsaariana.

Esses conteúdos vêm aparecendo sem excluir os conteúdos sobre os europeus dos livros, como alguns indivíduos contrários à lei vêm falando de forma equivocada. O professor pode e deve trabalhar africanos e indígenas sem deixar de lado gregos, romanos ou mesmo a Europa medieval. O que está ocorrendo, na verdade, é abrir o leque para conhecimentos que vão além do que aconteceu no continente europeu.

Por fim, a Cultura brasileira é fruto de um caldeirão que mistura indígenas, europeus e africanos (sem contar que em muitos lugares ainda há imigrantes de origem asiática), e a sala de aula precisa se preparar para mostrar essa realidade. A falta de preparo ainda é natural, pois a lei de obrigatoriedade e o debate sobre a importância desse conteúdo é recente inclusive nas universidades que estão formando novos professores ou ministrando formações para professores já graduados. Porém, é necessário que façamos essa discussão e possamos ter professores com preparo para trazer esses conhecimentos que são novos para nós brasileiros e, ao mesmo tempo, são fundamentais para que possamos conhecer nossa própria formação histórica e cultural.

 

Ígor Andrade Cardoso é especialista em ensino de História e de Geografia.

 

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