Sabado, 16 de OUTUBRO de 2021

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Crônica

Ana D`Avila | Meus guardados

por Ana D`Avila | Publicada em 28/09/2021 às 00h| Atualizada em 28/09/2021 às 11h35

Guardei de minha vó materna, um tarô, uma reza e uma luz que vem do céu. De meu pai, uma loucura sadia, um atrevimento, uma vontade de sumir só para barbarizar. De meus irmãos, uma brincadeira engraçada. De minha mãe, uma seriedade germânica. E de minha cachorra Kelly, uma vontade comer amendoim.

Do meu companheiro Ney, uma vontade ler, de descobrir autores, de saber o que os gênios pensam. Deste caldo, eu me insurgi no mundo.

Curiosa, ferina, doce, apocalíptica. Não sei me definir, mas tento. Sou uma mulher de um tempo de contrastes, de guerras, embaraços e pandemias.

Minha raiz está calcada na Terra Mãe. Na natureza, me encontro. E me decifro em raios e trovões. No  barulho do mar. Na ventania, na água do rio e no fogo das Salamandras. Sou assim, filha de uma tempestade.

Sou humana e atrevida. Boazinha. Não mais que um sopro. E, encontro-me no mundo com bilhões de outros seres. Sem saber necessariamente, o que é a vida e para onde vamos ao morrer.

Aos 25 anos achava que morreria aos 50. Data em que considerava o ápice de minha velhice. Ultrapassei os 50, os 60 e encontro-me nos 72.

Embaraçada em perguntas sem respostas. Filosofando, escrevendo, passeando e aprendendo sem saber exatamente para que serve esta experiência de vida.

Tomo muito café em companhia na Ana Paula, que deveria ser psicanalista, visto o tanto que me entende e compreende o mundo.

Ah...minha filhinha, também inserida neste mar de vida. E portando uma pitada do emocional da mamãe. Um tanto dos avós, tios, na imensidão genealógica que povoam nossos seres.

Vou me considerar louca, se rosnar como a minha cachorra Kelly ao sentir a energia de uma vizinha que vendia cosméticos e que a incomodava. Energia esta que era pesada.

Eu guardo muita coisa comigo: pensamentos, luas e inquietações. Meus guardados me pertencem. Assim como minha história, meus presságios e minhas escritas - que são muitas. Que são pedaços de vida.

Vida, um sopro. Só um sopro.

Cristiano Abreu

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