Quinta-feira, 13 de AGOSTO de 2020

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Crônica

Coluna da Ana D´Avila: Insônia

Publicada em 05/04/2020 às 00h| Atualizada em 05/05/2020 às 15h26

Não que não quisesse dormir. Saltou da cama. Como quê apeando do seu cavalo preferido. Mas não estava em nenhuma estância. Apenas deixava as preocupações atrapalhar seu sono. Assim, apeada, refletia. Tudo era insuportável. A casa fechada, o clima, os restos de comida, o banheiro de pia suja. E um drama planetário. Todos estavam morrendo com falta de ar. Se temia ? Temia. Tudo que sufoca, dói. Tudo que mata é trágico.

Aquele homem com uma lágrima no canto do olho, ainda tinha alegria para cantar. O mundo estava ruindo. Mas ele estava lá. Fazendo acreditar que tudo estava bem. Que havia esperança. Mas na verdade, nada existia.E o desamor imperava naquelas sociedades cheias de ódio. Havia um vazio existencial. Destes que atormentam. Que nos transformam em bactérias viventes. Vermes sutis. Que superioridade é esta que pensamos ter? Que escravidão é esta que  negamos todo dia? A vida é breve. Somos presas estúpidas que se vangloriam.

A cozinha estava iluminada. Em cima do balcão um bule de café.  Louças limpas. Cálices recém-comprados. Para brindes inexistentes. Os olhos corriam para além do gosto de comer algo. Ou de beber café. Alucinado café da noite de insônia. Três horas da manhã. A reza se fez necessária. O café também. Existem lares que nem café tem. Coitados. Assustados. Sem refeição. Falta emprego, falta dinheiro. Quase tudo. Mas a vida continua.

Na TV e, em plena pandemia, um extenso e pausado filme de sexo. Os atores pornôs com aquelas caras de tarados explicitavam a sua arte. Se é que aquilo era arte. Sinceramente não é hora de trepar. As trepadas eram de todas as formas. Mulher com mulher. Sexo coletivo. Menage a trois. Boquetes. Nesta altura, aquilo tudo gerava  pena. Com certeza, nojo. Asco pela grosseria da condição humana: animais. Não tem como suportar a certeza de que a  humanidade é animal. Que sobem uns sobre os outros na ânsia da satisfação carnal. Se  masturbam. Se  encostam. Se tocam. Rolam em posições ridículas. Enfiando línguas e dedos em todo corpo. Depois o orgasmo. As contrações do prazer. Que compõem um cenário grotesco. Vibração absurda.

Há sentido inteligente em ter pau e vagina? Aquelas coisas, ora estáticas, ora balançantes. Mas as três da manhã, enoja. O silêncio que serviria para a contemplação, agora serve para entender definitivamente que todos são animais. Animais com fome. No amplo sentido. Em todas as bocas, cérebros e órgãos genitais. A TV é desligada. O sexo ficou encenado naquele filme. Provando a bestialidade das necessidades humanas. Tão imprópria agora. Tão inexoravelmente estúpida.

A cama tem cobertor quentinho. O café é degustado num copo com um prazer que já não existe mais. O cantor, por certo, voltará a cantar, apesar da tristeza daquela lágrima. É jovem. Vai ver está sofrendo por amor. Nesta idade ter esperança é fato. É  uma testemunha de uma época difícil. De um tempo sinistro. Que ameaçou vidas. Que deu insegurança e insônia. Prenúncio da derradeira alucinação. Do desaparecimento coletivo .Talvez de uma mutação terráquea para o bem ou para o mal. Difícil de entender.

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Cristiano Abreu

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