Quinta-feira, 13 de AGOSTO de 2020

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Crônica

Coluna da Ana D´Avila: A mulher da sombrinha branca

Publicada em 12/05/2020 às 00h| Atualizada em 14/05/2020 às 14h29

Amenizando os raios solares, lá vinha ela. Estranha. Naquele povoado serrano, onde pouca gente a conhecia. Com sua sombrinha branca de todas as horas e estações. Ela evitava a radiação solar. Por isso, a sombrinha era sua companheira em todos os longos passeios. E também das andanças rápidas.

O hábito era como ter a certeza da proteção. O sol estava de raro tamanho. Enorme. Sua preocupação aumentava. Sua pele era branca. Descendia de alemães colonizadores da serra gaúcha. Na fruteira de artigos rurais e verduras orgânicas, sua presença era muito notada.

Com a lista das compras na bolsa de palha, Gertrudes acomodava a sombrinha. Que algumas vezes, na pressa, até caía no chão. Aos olhos estupefatos de seu Hermann, o dono do estabelecimento Em sua lista de compras não faltava batatas, repolho e a linguiça suína especial, que era produzida mais para o interior do município.

O vinho também era artigo principal necessário. Provinha de uma chácara e tinha agradável gosto de uva. Era natural. Segundo Gertrudes, era muito saudável. Sua alimentação era rica. Ela prezava o que comia. O dinheiro de sua manutenção nascia das ervas aromáticas. Produzidas numa pequena horta no terreno nos fundos de sua casa. Uma casa de cores verdes. Verde quase transparente que deixava a rua, como quê, iluminada. Ou  ecológicamente  correta.

Gertrudes falava o português com sotaque alemão de Hunsruck. Na serra do Rio Grande do Sul, era considerada uma mulher exótica. Tinha poucas amigas. Era uma andarilha. Não apreciava automóveis e dificilmente andava de táxi. Seus pés eram a sua base. Percorria longos caminhos que iam se adaptando aos sapatos. Já bem surrados, mas de couro de muita qualidade.

Teve em sua adolescência um grande amor. Jamais esquecido. Com o casamento marcado, sofreu uma decepção. Que a marcou profundamente. Reservada em seu tocador, tinha um porta-retrato com uma foto amarelecida. Era do rapaz que ela amou. E nunca esqueceu.

Carregou a decepção em silêncio por uns longos vinte anos de sua vida. Até que num domingo ensolarado, acompanhada de sua inseparável sombrinha, subiu num penhasco. E de lá se jogou. Seu corpo jamais foi encontrado.

Pobre Gertrudes de sombrinha branca. Morreu cedo. O povo mais antigo de sua vizinhança ainda lembra dela. Tornou-se uma lenda. Gostava de, além da sombrinha branca, usar longos vestidos brancos confeccionados em seu tear. Adorava costurar. Desde que as vestes fossem da mesma forma, brancas. Sua cor predileta.

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Cristiano Abreu

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