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Crônica

Ana D´Avila | A observadora

Publicada em 22/12/2020 às 00h| Atualizada em 22/12/2020 às 13h01

A janela do quarto dava para uma pequena viela. Dali, ela tudo via. A persiana, mesmo fechada, a oferecia recortes do mundo lá fora... seus pequenos orifícios faziam-na chegar à rua e aos passantes.

Ela os observava. Mas ninguém sabia que estava sendo visto. Não deixa de ser como as câmeras de segurança atuais das grandes cidades.

Todo dia, após o almoço, ela se dirigia à janela em busca de histórias. E depois da aula, voltava ávida por novidades. Lá fora estavam histórias de vizinhos, de passantes desconhecidos, de cães e gatos das redondezas. Em frente à janela havia um banco de praça, onde a gurizada se reunia depois da escola. As falas dos adolescentes eram inaudíveis.Talvez porque falassem de fatos suspeitos. Ninguém falava alto. Portanto não dava para entender o que diziam. Mas suas expressões sim. Seus olhares e trejeitos também.

Numa tarde quente de verão, um número expressivo de garotos fazia concorrência para sentar no dito banco. Transparecendo medo, começaram a mostrar seus pênis uns para os outros. Pareciam se analisar.

No apartamento de cima, morava uma prostituta. Os clientes da vez poderiam vir daquele bando de moleques, ávidos por sexo. Sim, talvez eles tivessem marcado hora com ela, que discretamente atendia em seu apartamento.

Teresa era discretíssima. Deveria ter uns quarenta e poucos anos. Não era jovem, nem bonita. Usava cabelos de corte chanel e tom castanho escuro. Tinha uma bunda enorme que se destacava quando usava vestidos de tecido leve. Não falava com ninguém. Nenhum vizinho conhecia detalhes sobre a vida, ou sequer a voz dela. Um dia se envolveu numa confusão com dois clientes que brigavam por ela.  

O pequeno edifício onde morava não tinha elevador. E os dois homens desceram a escada se esbofeteando sem parar. Ela correu atrás para separar a briga, do alto de seu camisolão de renda preta. Os homens foram embora e ela voltou para o seu apartamento. Apesar do vexame acompanhado pela vizinhança, não demonstrou nenhum pudor. Sua fama era grande. Sua elegância também.

O IAPI, onde ela morava, era composto por vários pequenos edifícios. A janela da observadora situava-se num desses blocos que foram adquiridos por trabalhadores em convênio com a indústria e o comércio. Teresa e tantos outros que  foram morar lá tiveram acessibilidade à moradia barateada. As  edificações compactas  tinham somente três pisos.

Um dia, Teresa desapareceu do bairro. Seguiu sua vida. Talvez hoje esteja muito velha, talvez tenha morrido. Ninguém nunca mais ouviu falar dela. Já a observadora continua a espionar a tudo e a todos. A janelinha que dá para a viela, no entanto, faz parte do passado. Ainda hoje, mantém o hobby de cuidar o alheio, mas em caráter não tão secreto como no final daqueles anos sessenta.

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Cristiano Abreu

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