Sabado, 10 de ABRIL de 2021

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Crônica

Ana D´Avila | Sensações

Publicada em 02/03/2021 às 00h| Atualizada em 02/03/2021 às 12h50

A noite tinha acabado, e o dia prometia. Um sol escancarado vislumbrava a janela. Sem cortinas, por absoluta carência financeira, o quarto se iluminava. Era uma sensação esquisita. O quarto tão claro, e a vida tão nebulosa, escura. A falta de dinheiro e o pauperismo daquele país os levavam a mendigar. comida, para os parentes. Dinheiro, para ir ao médico. O homem tossia sem parar. Estaria com tuberculose? Improvável, pensava. A ciência e a medicina se aprimoravam cada vez mais.

Maria deitada e envolvida num lençol barato balbuciou algumas palavras. Estava acordando de um pesadelo. Na cozinha, nada para comer. Restos de bolachas como migalhas eram a apoteose para ela. Com o gosto amargo do café preto sem açúcar, viu o dia raiar. Não estava de dieta. Estava sem dinheiro para comprar açúcar, que até não era tão desejado.

Desejado era seu marido. Um rapaz forte de olhos amendoados que sabia tocar nela com maestria. Suas noites de amor, nos tempos de fartura, chegavam a loucura. Mas agora, não mais. As carícias foram trocadas por preocupações. E os beijos, deixaram de ter sabor. Nada é tão duro como a fome. Nada, absolutamente.

A pobreza quando bate à porta estanca até o prazer e a alegria. Ela não mais sorria. Não sentia mais orgasmos. Se limitava a entregar currículos, atrás de emprego nas principais indústrias da cidade. Os tempos mudaram. A economia do mundo esgotara-se num capitalismo selvagem. Ricos, cada vez mais ricos, e pobres cada vez mais pobres.

Ela era da classe média. Outrora navegava em sonhos. De consumo, de boa vida e de segurança no futuro. Hoje está cansada de esperar milagres. Entrou para um grupo religioso que lhe dava alento para continuar, e fez política. Esperando bons resultados.

O marido, da mesma forma, desempregado, contava as moedinhas para iniciar outro dia. Pelo menos pão e uma garrafa de leite ele haveria de colocar na mesa. O dono da padaria o conheceu em outros tempos e acabou lhe fiando alguns itens de seu café, que teve queijo, pão e leite. Nada mal para quem a muito passa fome. E fome, mata. É uma das carências mais insuportáveis da vida. Neste dia, com a força da alimentação e da oração, teve mais sorte. Conseguiu uma colocação num escritório contábil de seu bairro.

Maria optou por reivindicar. E foi parar num sindicato. Não deixando de pensar em política, em filosofia e nas milhares de pessoas, que como ela, lutam para sobreviver. Tinha diploma universitário, discernimento político e entendia o que acontecia com seu país, incrustado na América Latina de tão sofridas populações.

O casal lembrava das noites quentes de sexo e amor que passaram em sua primeira residênca. Agora moravam de aluguel e lutavam para pagar as dívidas. E sem medo ou pudor, não faziam mais sexo.

Passados dois meses, estavam novamente mais estáveis na condição financeira. Só o trabalho dignifica.

Num destes entardeceres, depois da labuta do trabalho, passou no supermercado. Comprou dois cálices e um espumante, que foi delicadamente aberto antes de um pequeno jantar preparado por Maria, que, deslumbrada, sentiu grande prazer olhando os pratos cheios de comida. Brindaram à vida, saudaram a política, a religião, os empregos. Comeram e desejaram que os ricos compreendessem a condição humana. Talvez num grande desapego. Talvez dividindo ideias e talheres.

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Cristiano Abreu

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