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Crônica

Ana D`Avila | A velhinha e a lei de Gérson

Publicada em 01/06/2021 às 00h| Atualizada em 01/06/2021 às 11h35

Ela era de uma candura excepcional. Rezava. Ajudava o próximo. Mas de uns tempos pra cá, mudou o comportamento. Entrou de cabeça na “lei de Gérson”. E levando vantagem em tudo, passava na frente de todo mundo.

Fosse na fila do supermercado, na farmácia e até no banco. Sempre onde pessoas, com usual desespero e pressa, ficam horas aguardando atendimento.

Ela, em seus trambiques, tinha muita lábia e habilidade. Movida por uma necessidade premente para resolver seus problemas, ia ficando cada vez mais inconveniente.

Conceição, morava sozinha aos 65 anos. Teve apenas um filho, Fernando, que foi morar no Piauí, bem distante da mãe, que a esta altura já nem era uma figura importante. Depois de um casamento de fachada, ela resolveu o imbróglio na frente do juiz, se divorciando. Mas para enfrentar a vida sozinha, teve que apelar para a filosofia de Gérson. E o pior é que conseguia - sempre - levar vantagem.

Na idade dela não tinha mais encantos físicos. Com uma cara deslavada, se fazia simpática a todos. As pessoas gostavam dela. Aí, ela atacava. Jamais cometia grandes falcatruas. Sua especialidade era passar na frente das pessoas quando as filas eram compridas e problemáticas. Fazia um teatro de coitada, com suas vestes puídas e constantes piscadas deslavadas, que lhe davam um ar cômico.

No mês passado, Conceição descobriu que seu cartão da aposentadoria estava vencido. Desesperou-se. Foi ao banco. Mas encontrou uma fila enorme. Teria que esperar. Enfrentar um dia frio para resolver o problema. Com a ajuda de um rapaz, que do nada lhe entregou uma senha, passou na frente de todo mundo. Foi bem rápido.

Os demais integrantes da enorme fila reclamaram. Mas ela se fez de louca e entrou, mesmo com os protestos, como se aquelas ofensas não fossem dirigidas a ela. À noite, em sua mesa solitária, tomou uma xícara de café com leite e pãozinho com manteiga. Pensou no erro que cometeu. E mais enfática do que das outras vezes, pediu em prece, perdão a Deus. Seu ato, inspirado na lei de Gérson, foi instituído no Brasil há alguns anos. Mas não é, e nunca será, um ato de conduta correta.

Em tempo: Na cultura midiática brasileira, a Lei de Gérson surgida na década de

70 é um princípio em que determinada pessoa ou empresa obtém vantagens de forma indiscriminada, sem se importar com questões éticas ou morais.

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Cristiano Abreu

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