Sabado, 16 de OUTUBRO de 2021

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Crônica

Ana D´Avila | Maria da ficção

Publicada em 06/07/2021 às 00h| Atualizada em 06/07/2021 às 14h55

Aquele sulco desenhado em seu rosto era a vida vivida. Não queria negar, tampouco esquecer, mas as mulheres em geral se incomodam com a passagem do tempo. Pintam os cabelos, como se colocar uma cor em cima dos grisalhos apagasse a idade adquirida. Não é bem assim. Há de se buscar beleza nestas transformações.

Maria era diferente. Outrora hippie. Envelhecia com estilo. Talvez com inteligência. Como faz Elisabeth II, a Rainha da Inglaterra, que acha vulgar pintar os cabelos para esconder a idade.

Não era descrente. Acreditava na vida. Na força superior que rege a energia da natureza, que explode em vibrações e luzes à cada estação.

Sem saber quase nada da praticidade da existência, concluiu seus estudos. Parcos estudos sem orientações e sem interferência de muitos livros. Sem um rumo certo, assim como barco ao sabor do vento.

Nua e crua, adentrou ao mundo cotidiano, profissional, sexual e lúdico. Acreditava num relacionamento sério, compensador e responsável. Ledo engano. Só sentiu desilusões.

O compensador não compensava. E o sexo nunca existiu. Nem mesmo a tal responsabilidade. A não ser em cenas ridículas, patéticas e absurdas.
Como aquela língua, que igual à uma serpente, colocava nela um veneno fétido.

A perda da virgindade com aquele senhor de cabelos sujos a enojou. A cabeça dele cheirava a peixe. Era repugnante. Naquela época, a atriz Maria Schneider e o ator Marlon Brando faziam sucesso com o célebre filme O Último Tango em Paris. Talvez a Maria real se espelhasse na Maria da ficção, e desejasse fazer amor no chão, desprovida de cama e conforto, como acontecia nas cenas do filme com a Maria atriz. Na vida real, só decepção.

Mas por qual motivo ela se sujeitava? Repressão, incompreensão da vida? Aceitação de migalhas? Por longo tempo foi assim: desistência de suas necessidades em função do outro. O outro, que nasceu esquizofrênico e que continuava pela vida fazendo estragos nas pessoas.

A convivência sem amor não vinga. O parceiro escolhido era doentio. Assim, sem pensar, lhe tirou a inocência estética, a virgindade e toda a energia do bem adquirida. Lhe deu algumas compensações intelectuais, que serviram mais para perturbar do que enriquecer o intelecto.

Maria sofria. Dores existenciais, dores da alma. Não físicas. Por ter fé em Deus, jamais deixou de ser feliz. Sua própria vida, as lembranças do pai e sua criatividade profissional lhe davam razões de sobra para continuar alegre e feliz.

Seu cárcere não era político. Era como se ela tivesse uma corda pendurada em si, de cabeça para baixo. Estava quase enforcada, mas não desistia de viver. No país imperava a ditadura militar. Mas esta época não a afetara politicamente.

Aos cinquenta anos, olhava para trás e via um caminho vazio, que foi se complicando ainda mais com o passar dos anos. Quanto mais pensava na sua amarra, mais enredada ficava.  Foi então que olhou para o céu. A noite estava bem estrelada, e a lua cheia. Pensou na sua pequenez. E decidiu assumir seu erro. De ter feito uma opção de relacionamento errada.

Haveria tempo para correções? Não havia certeza, mas estava disposta a mudar. E mudanças estruturadas geralmente são exitosas.

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Cristiano Abreu

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