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3º Neurônio | opinião

Cena do filme em cartaz, com o batizado de Maria Madalena

A Igreja continua escondendo o segredo de Madalena

Publicada em 28/03/2018 às 16h25| Atualizada em 02/04/2018 às 11h16

A Igreja precisa rever suas origens para eliminar o lastro de machismo para voltar a ser o que foi em seus primórdios: a Igreja de Madalena, mais que a de Paulo, menos autoritária e masculina. O Diário recomenda e reproduz a coluna de Juan Arias no El País

 

O recém-estreado filme Maria Madalena, de Garth Davis, mesmo prescindindo do seu valor cinematográfico, serviu para recordar que a Igreja Católica continua mantendo o segredo sobre a figura da mulher mais citada nos evangelhos, mais inclusive que a mãe de Jesus. Foram necessários 1.400 anos para que Roma acabasse aceitando que Maria Madalena não foi nem prostituta nem endemoniada. E se tivesse sido a mulher de Jesus? E se não tivesse sido nem sequer judia, e sim seguidora da filosofia gnóstica? E se tivesse sido a fundadora do primeiro cristianismo? O medo da Igreja de ressuscitar a identidade e importância de Madalena em sua fundação é compreensível, já que isso significaria revisar a história desde a suas origens, assim como a teologia da sexualidade e o papel da mulher na hierarquia do catolicismo, onde continua relegada a um segundo plano. Teria algum sentido o celibato obrigatório se até Jesus era casado?

É compreensível o susto que a Igreja levou quando, em 1945, foram descobertos em Nag Hammadi, no Egito, um punhado de manuscritos de evangelhos gnósticos do século IV que tinham desaparecido porque a Igreja os destruíra ao considerá-los apócrifos. Neles fica clara, por exemplo, a estreita relação sentimental e espiritual entre Jesus e Madalena. Tão íntima que incomodava os apóstolos homens. Pedro chega a se zangar e pergunta ao mestre por que lhes oculta “segredos que só a ela revela”. E sentencia: “Que Maria saia de entre nós, porque as mulheres não são dignas da vida”.

Aqueles manuscritos gnósticos impressionaram tanto o psicanalista Carl Jung que ele se empenhou até conseguir comprar um deles. Que Jesus e Madalena fossem conhecedores das doutrinas gnósticas e as discutissem entre si é algo revelado num desses manuscritos, quando se diz que Jesus “a beijava na boca”. Não se tratava, entretanto, só de um gesto de afeto. Beijar-se na boca era, para os gnósticos, a forma de transmitir sabedoria.

Hoje sabemos que na aurora do cristianismo houve o choque entre duas teologias, a dos gnósticos, protagonizada pelo grupo de Maria Madalena, e a do apóstolo forasteiro, Paulo de Tarso. Na teologia gnóstica não se fazia distinção hierárquica entre homem e mulher, e se ensinava que o mal não é fruto do pecado original, como continua defendendo a Igreja de hoje, mas sim da ignorância. O que salva para os gnósticos é a sabedoria.

Se tivesse triunfado a corrente gnóstica, que apoiavam não poucos dos primeiros bispos, a Igreja hoje seria totalmente diferente, já que nela a mulher teria o papel fundamental que teve no primeiro século depois da morte de Jesus. A teologia misógina de Paulo e a contaminação com o poder romano fizeram com que a mulher acabasse marginalizada dentro do cristianismo.

Não é preciso, entretanto, ir aos evangelhos gnósticos para demonstrar a liderança de Madalena já durante a vida de Jesus e depois da sua morte. Basta uma análise hermenêutica dos quatro evangelhos oficiais da Igreja para constatar como Jesus, contra toda a tradição judia, tinha escolhido uma mulher como a depositária da sua mensagem. Madalena aparece, de fato, nos quatro evangelhos canônicos como sua confidente, e ela está consciente da sua relação especial com o profeta.

O momento-chave que revela a importância de Madalena para Jesus é o da cena da crucificação e ressurreição. É narrada pelos quatro evangelistas, mas o que oferece detalhes que só ela podia conhecer é o Evangelho de João, considerado, curiosamente, o mais gnóstico e do qual se chegou a pensar que poderia ter sido escrito por Madalena.

Aparecem nesse quarto evangelho, por exemplo, detalhes como que Maria Madalena foi ao local da crucificação “na alvorada” e que “ainda estava escuro”. “Jesus”, chama ela, demonstrando intimidade, e o abraça e o chama pelo nome carinhoso de Rabbuni, que em hebraico quer dizer “meu bom mestre”. Jesus aparece a ela antes que aos apóstolos homens e antes que à sua própria mãe. Tomás de Aquino, doutor da Igreja, torturava-se por não entender que Jesus aparecesse a Madalena, uma mulher, e não a Pedro, considerado o cabeça dos apóstolos. Ainda mais que na época as mulheres não eram nem levadas em conta nos processos judiciais.

Lembro que o Nobel de Literatura, ateu, José Saramago, depois da leitura do meu livro Madalena: o Último Tabu do Cristianismo, traduzido no Brasil pela editora Objetiva, comentou com sua mulher, Pilar, que o aparecimento de Jesus a Madalena antes que a qualquer outra pessoa era a prova de que ela era sua mulher. “Se eu, depois de morrer, pudesse ressuscitar, é evidente que apareceria para você antes do que para qualquer um”, disse-lhe, meio de brincadeira, meio sério.

A Igreja, como em parte está fazendo o papa Francisco, precisa rever suas origens para eliminar o lastro de machismo com o qual foi contaminada, para voltar a ser o que foi em seus primórdios: a Igreja de Madalena, mais que a de Paulo, menos autoritária e masculina, em que a mulher tinha um papel institucional do qual foi sendo despojada até que se transformasse numa Igreja de homens com medo da mulher.

Os gnósticos, mais que a teologia de Paulo, do pecado e da cruz, davam grande importância ao conhecimento intuitivo e à poesia, à força da sabedoria. Uma força poética que pode ser apreciada no lindo poema que aparece no livro gnóstico O Trovão: a Mente Perfeita, que curiosamente evoca o começo do evangelho de João:

 

Porque sou a primeira e a última

Eu sou a honrada e a rejeitada.

Eu sou a prostituta e a sagrada.

Eu sou a esposa e a virgem. [...]

Eu sou a estéril,

e muitos são os filhos dela. [...]

Sou o silêncio que é incompreensível. [...]

Sou a pronúncia do meu nome.

 

Em seguida a Igreja acabou adquirindo o medo da sexualidade, o desprezo pela mulher, o pecado, a cruz e o inferno. Quando visitei pela primeira vez em Roma algumas catacumbas cristãs, me chocou observar que nas primeiras pinturas que conhecemos do cristianismo primitivo, do final do século II, não aparece nem uma vez Jesus crucificado. O cristianismo de Madalena não gostava do símbolo da cruz. As figuras representavam Jesus como o bom pastor ou jantando com seus apóstolos. Em algumas figuras, mostradas apenas a especialistas bíblicos, já aparecem mulheres vestidas de bispas.

Aquela igreja da alegria, da fraternidade, da ternura, do perdão e da esperança, sem distinção entre homens e mulheres, pobres e ricos, ainda está à espera de uma nova ressurreição cristã. O papa Francisco acaba de chamar Madalena de “a apóstolo dos apóstolos”. Será o primeiro gesto de reconhecimento do primeiro cristianismo feminino?

 

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Cristiano Abreu

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