Sabado, 31 de OUTUBRO de 2020

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Facebook

3° Neurônio

Na véspera do tetra, uma cervejota

Publicada em 01/04/2018 às 11h35| Atualizada em 05/07/2019 às 15h19

por Cláudio Dienstmann

A seleção de futebol é o Brasil que deu certo (Carlos Alberto Gomes Parreira, técnico).

Fiquei quieto ao ser escolhido símbolo do fracasso em 1990 – a resposta veio à altura (Dunga)

A Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, acabou sendo uma das sete com prorrogação na final (após 1934, 1966 e 1978, e antes de 2006, 2010 e 2014), e a primeira das duas decididas em pênaltis, antes de 2006. O capitão do tetra foi Dunga, herói improvável que afinal herdou a faixa de comando, que já tinha passado por Jorginho, após Raí sucumbir à responsabilidade de liderar o time e acabar perdendo inclusive a vaga de titular.

Antes da Copa de 1994, o técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira, tinha vindo a Porto Alegre para uma entrevista à editoria de esportes de um jornal. Na entrada do prédio, ouviu o pedido do porteiro:

– Parreira, manda esse teu time pra cima dos gringos, vamos atacar, jogar bonito, atropelar esses caras – disse o homem, com súbita intimidade e quase mandando.

– Pode deixar! – resmungou Parreira, seco, conformado, alheio (e olhando feio!).

– Atacar, deixar a defesa aberta, jogar bonito, e perder outra vez, mas pode deixar mesmo – resmungou o técnico, já longe do porteiro.

Na Copa nos Estados Unidos, o técnico foi contestado, criticado, vaiado antes de cada um dos sete jogos – pelos torcedores brasileiros! –, mas persistiu no seu pragamatismo durante todo o tempo. Na final, 0x0 no tempo normal e prorrogação, 3x2 nos pênaltis, deu Brasil.

A seleção fez apenas 11 gols nos seus sete jogos na Copa de 1994, modesta média de 1,57, metade dos 3,16 de 1970. Mas levou só três e foi tetra, depois de 24 anos de espera e de muito futebol bonito – aquele que também encantava até os adversários, inclusive porque no fim eram eles que acabavam ganhando mesmo.

A concentração do Brasil para a semifinal com a Suécia e a final com a Itália no Estádio Rose Bowl de Pasadena foi no Marriott, um hotel de seis andares em Fullerton, a 42 quilômetros de Los Angeles. A seleção ocupou todo o segundo andar, entradas pelos elevadores e escadarias vigiadas por seguranças 24 horas por dia, ninguém passava. Havia apenas três jornalistas no hotel, no quinto andar. Os jogadores, que não podiam receber ninguém no segundo, circulavam livremente.

Muito chimarrão foi tomado no apartamento do quinto andar naquela última semana da Copa de 1994, com a gauchada – Taffarel (encantado com a comunicação via computador), Dunga, Branco. Na tarde de sábado véspera do domingo da final com a Itália, Branco chegou nervoso, e começou a olhar de lado para o frigobar no apartamento do amigo. Lá dentro tinha uma coisa que não existia no segundo andar:

– Eu já joguei em 1986 e 1990, esta é a minha última chance de ganhar a Copa, mas a ansiedade de esperar o jogo de amanhã vai me matar antes!

O amigo entendeu: tirou uma cerveja pequena do frigobar e combinou, “só essazinha!”, e fez mais: pegou o celular, ligou para a filha, amiga de Branco, e botou o jogador para falar com ela. Depois de algum tempo, o lateral se despediu da amiga com um pedido:

– Reza pela gente!

Foi uma choradeira só – que se repetiu na madrugada do dia seguinte, quando Branco e Dunga bateram escandalolamente na porta do apartamento do quinto andar do Marriott Fullerton, Estavam (digamos assim) com os pés molhados, mas beeeeeeeeeeeeeeem molhados – os mesmos abençoados pés que no inicio da tarde daquele 17 de julho haviam feito dois dos três gols na vitória por pênaltis sobre a Itália. Nas mãos, traziam nada menos do que ela, sim, a Copa do Mundo:

– Pode abraçar. Ela não é linda?

Muito tempo antes, o jornalista tinha ouvido com inveja distante o relato de um colega mais antigo, que era amigo do grande atacante Zizinho e escreveu que tinha tomado umas doses de conhaque com ele em plena concentração durante um sul-americano no frio do Chile. O jornalista que tinha lido esse relato ficou com aquilo na cabeça até 1994, era a sua sexta Copa, as cinco primeiras havia visto o Brasil só perder, começava a pensar que era pé-frio. Além disso, décadas antes a seleção praticamente só tinha jogadores do Rio e São Paulo, e os jornalistas paulistas e cariocas faziam como se o time fosse monopólio deles, só eles podiam ser amigos dos jogadores da seleção.  

No Rose Bowl, taça ao alto, ele lembrou da história de Zizinho e comparou com a cervejinha de Branco. Era uma realização pessoal, também – Brasil campeão e amigo dos caras! No fim, chorão contumaz, se abaixou em prantos sobre o laptop, como se estivesse sozinho no estádio barulhento, enquanto amigos alemães, holandeses, suiços, batiam nas suas costas com mãos de raquete, felizes, gritando “parrabems, parrabems ...”. Foi preciso levantar a cabeça para não perder a festa de Dunga recebendo a Copa do vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore – e pensando “esses caras vão me matar”, ficar em pé para não ter alguma costela quebrada por aqueles malucos com seus eufóricos raquetaços.    

Isso tudo não é balaca, nem para se prosear, mas o jornalista guarda com saudade e orgulho a chave do apartamento do Marriott, o ingresso número 50 da final no Rose Bowl, a credencial 4167 de 1994, e um presente que recebeu de Dunga tempos depois: uma moldura com a foto autografada do capitão com a camiseta do tetra e levantando a Copa, gritando “é nossa, porra”!

 

 

 

 

Agenda histórica do futebol gaúcho na semana

 

1.4, domingo

1917 – Federação Sportiva Rio-Grandense, FSRG, decide que estrangeiros só poderão jogar futebol em Porto Alegre após um ano de residência – Grêmio não aceita a decisão e abandona campeonato da cidade

 

2.4, segunda-feira

1918 – Primeira mulher sócia do Inter, Maria von Ockel

 

3.4, terça-feira

1955 – Renner campeão gaúcho (de 1954), 3x0 Brasil de Pelotas, Estádio Tiradentes, esquina Farrapos com Sertório

 

4.4, quarta-feira

1909 – Fundação do Sport Club Internacional

 

5.4, quinta-feira

1936 – Festival de inauguração do Estádio do Passo da Areia, do São José, que perde por 3x1 para o Inter

 

6.4, sexta-feira

1969 – Inauguração do Estádio Beira-Rio, Inter 2x1 Benfica de Portugal, primeiro gol é de Claudiomiro, 19 anos

 

7.4, sábado

1996 – Grêmio super-campeão sul-americano, 4x1 Independiente da Argentina, em Kobe, Japão

Últimas 3º Neurônio

3º Neurônio - Ideias
O que as mensagens de Robinho revelam sobre os grupos de Whatsapp dos homens
3º Neurônio
Gelson Radaelli inaugura ’No espelho não sou eu’; veja obras
3º Neurônio | ideias
Como criar filhos antirracistas? Uma jornada em primeira pessoa
3º Neorônio
7 de Setembro: morte
3º Neurônio | ideias
Cultura do cancelamento: prática autoritária ou voz dos excluídos?
Opinião | Senador Paulo Paim
Mulher: desigualdade, preconceito, violência
3º Neurônio | ciência
Radiografia de três surtos de coronavírus: como se infectaram e como podemos evitar
3º Neurônio | ideias
Preservar vidas ou retomar a economia? Ética de Weber para tempos de pandemia
3º Neurônio | opinião
O nojo
3º Neurônio | comportamento
O luto pela velha normalidade: como superar o fato de que nossos projetos desapareceram
3º Neurônio | saúde
Médica fala sobre a ’hora da morte’: As pessoas morrem sozinhas; Sozinhas, sozinhas, sozinhas
3º Neurônio
Por que o bolsonarismo-raiz engendrado nos gabinetes do ódio não terá futuro no Brasil?
3º Neurônio | opinião
Bolsonaro fica nu ao se despir das três bandeiras que o levaram ao poder
3º Neurônio | Humor
Bugigangas pandêmicas
3º Neurônio | Saúde
Fazer exercícios físicos ao ar livre em meio à pandemia é seguro? Os riscos e cuidados necessários
3º Neurônio | Questões de quarentena
Bolsonaro cita CLT e sugere indenização a empregadores; advogados dizem que não é bem assim
3º Neurônio | opinião
O vírus somos nós (ou uma parte de nós)
3º Neurônio | comportamento
Conselhos dos esquimós contra o pessimismo
3º Neurônio | ciência
Estudo genético mostra por que vírus da covid-19 não foi feito em laboratório
3º Neurônio | arte
Explicando, série da Netflix, previu a pandemia do coronavírus

Cristiano Abreu

Redação, sugestão de pautas e redes sociais
51 9 9962 3023
[email protected]

Rafael Martinelli

Editor
[email protected]

Roberto Gomes

Diretor
[email protected]

Ao reproduzir uma de nossas matérias, é ético citar a fonte.
As opiniões assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a posição do jornal.
Desenvolvido por i3Web.
2016 - Todos os direitos reservados.

Rua Osvaldo Aranha, 43 - Sala 5 - 94410-630 - Centro - Viamão - RS