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O dia em que o consultor foi abduzido por um dinossauro

Publicada em 20/06/2018 às 14h52| Atualizada em 05/07/2019 às 15h43

por Leandro Melo

Era o primeiro dia da nova Coordenadora do setor de Marketing. Uma função nova e estranha aos demais, pois já havia um Gerente da área e aquele cargo parecia ter sido criado mais para enquadrar os consultores técnicos que trabalhavam sem uma chefia específica. Martin era um daqueles consultores e despontava como um líder natural do pequeno grupo. Foi alertado pelos colegas, que a nova chefia não era “flor-que-se-cheire”. Mas lá foi ele sentar-se diante da bela e aparentemente simpática ex-executiva de uma multinacional, que, agora, amargaria os dias a reorganizar a atuação do relacionamento com os clientes na nova e pequena empresa.

O primeiro feedback já soou estranho. Mesmo sem conhecer o pessoal, já dizia que “se via em cada um deles”, que todos trabalhariam com “grande sinergia” e, ainda, que queria ver “a atitude agressiva de cada um” na próxima reunião. E mesmo sem saber que patavinas aquele discurso que parecia copiado de 'Como fazer amigos e influenciar pessoas' queria dizer ao certo, passaram-se semanas da mesma ladainha.

As reuniões de alinhamento terminavam mais desalinhadas do que começaram e foram se esvaziando ao longo do tempo. Compareciam uns poucos que perceberam uma forma de se locupletar com a política do “vale o quanto aparenta” e tudo foi se encaixando assim mesmo.

Aos poucos, se formou um pequeno exército de recitadores das frases feitas de Dale Carnegie sempre apoiadas por alguma pesquisa obscura com percentuais que convenciam como 89% das pessoas que obtêm sucesso profissional são mais magras do que 11% daquelas que apenas desejam mais sucesso profissional. Isso sempre arrancava um “ohh” e pescoços em movimento pendular nas enfadonhas reuniões de quinta-feira.

Mas no dia em que a fulana plagiou as propostas do relatório técnico produzido dias antes pelos colegas de Martin ele não se conteve. Atravessou a passos largos o corredor de tom alaranjado e repleto de luz natural, entrou na sala da nova chefe e bradou:

- A sua desfaçatez ultrapassou todos os limites! 

E seguiu falando pelos 52 segundos mais longos e raivosos que já se teve notícia no Mundo do Trabalho. Tempo suficiente para evocar os princípios da Nova Economia e do Co-working e criticar e a inutilidade das teorias e dos teóricos pseudo-empresariais do pós-guerra, com o chefe-coach e afins.

Mas num rompante, teve as mãos vigorosamente seguradas entre as mãos da sua detratora. E ela, com os olhos iluminados por um lacrimejar quase sincero lhe disse que era exatamente a reação que ela esperaria do seu novo sub-chefe de setor.

- Uma indignação em defesa da incansável busca pela verdade e pela defesa da equipe - disse ela.

Se ele estivesse disposto assumiria o cargo imediatamente. Passaram-se dias até que se desse conta de que, finalmente, foi engolido pelo jeito de se fazer negócios onde se faz negócios. Para se apresentar aos colegas como o novíssimo sub-chefe fez um longo e-mail explicando como os desafios do líder, nos tempos de hoje, implicam encontrar caminhos pouco ortodoxos para direcionar aqueles que ainda não foram iluminados pela sagacidade e perspicácia necessárias aos que de fato vencem no universo complexo das organizações contemporâneas. Mas que 18% dos que realmente desejam conseguir conseguem mais do que os 82% que apenas pensam em conseguir.

Não sobrou espaço para explicar que a agitar o mar da grande onda da modernidade, estão os dinossauros se virando no subsolo.

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Cristiano Abreu

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