Quarta-feira, 20 de OUTUBRO de 2021

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Facebook

3º Neurônio | humor

Fraga | Claustrophobia

Publicada em 09/06/2021 às 00h

Depois de nove meses num cubículo apertado chamado ventre materno, é de admirar que não nasçamos todos claustrofóbicos. Não há como saber: aquele berreiro dos nascituros ainda não foi de todo decifrado. Para alguém que ainda não sabe rir, pode muito bem ser a válvula de escape do alívio. Vá saber.

Ou, talvez, sei lá, a claustrofobia que alguém venha a ter seja, justamente, uma possível e atrasada resposta emocional ao seu traumático confinamento intrauterino, aquele quitinete de água e sangue e sem janelas.

Entre o vir ao mundo e o sair do mundo, muitos medos vão rolar.

E ao entrar na nossa mente (se é que não são atávicos, eternos inquilinos do crânio) parece que a maioria dos medos adora o refúgio. E mesmo adorando a pensão mental, os medos costumam sair para os diários testes-drive de coragem: ir trabalhar, arrumar companhia, abastecer a despensa, enfrentar assaltos e pandemias, levar o cachorro pra cagar na grama dos outros etc e tal.

Embora seu lema tenha sido criado por Guimarães Rosa ("Viver é muito perigoso."), os medos vivem a fim de experiências. A exceção é o medo claustrofóbico. Enquanto medos mais comuns imaginam desafios, a imaginação descomunal da claustrofobia imagina terrores. Eu é que não vou tirar a razão dela.

Acontece que depois de décadas livre da barriga da mãe, o ser humano se condicionou à soltura. Não quer saber de elevadores lotados (muito menos de repente parados no escuro entre dois andares), de armários, cápsulas espaciais, minas profundas, submarinos ou escafandros, tumbas egípcias, solitárias de prisões, claustros em mosteiros e conventos, porta-malas ou conjugados de 8m x 2,5m.

A claustrofobia, que circula numa boa por saguões e salões, encantada com altos pés direito e largos horizontes, sabe que nessa vida o seu hospedeiro pode escolher por onde andar e não se meter nas armadilhas das pequenas dimensões. Mas ela sabe também que não existe controle na outra vida. Isso todo claustrofóbico sabe, porque o genialmente mórbido Edgar Allan Poe soube transpor para a literatura o horror da captalepsia. No conto Enterro Prematuro, Poe descreve o indescritível, e se o leitor padece do pior dos medos, convém nem procurar o livro Contos de Terror, Mistério e de Morte. (Lido aos 14 anos, relido várias vezes.)

Acontece que a paranoia, parente próxima da claustrofobia e tão medrosa quanto ela, tem fixação pelo assunto e fica catando pistas no mundo real para justificar seus calafrios. Aliás, o principal argumento da paranoia são os erros médicos. Depois de afirmar que frequentemente acontecem erros médicos em diagnósticos, em tratamentos, em cirurgias, em trocas de pacientes, ela pergunta: por que não haveria também erros médicos nos atestados de óbitos?

O horror não está em perguntar: está nas probabilidades. Se há milhões e milhões que morrem diariamente, quantos desses não são vítimas de enganos, falhas, negligências ou despreparo? Em abril, noticiou o argentino Clarín, uma mulher estava no velório da mãe (84 anos, morta por covid) num crematório em Buenos Aires quando percebeu movimento na máscara da mãe no caixão. Foram conferir e a senhora ainda estava viva. Depois do susto brutal veio realmente a falecer, quatro dias depois.

A mais portátil claustrofobia moderna ocorre nos tubos de tomografia e ressonância magnética. A maioria dos pacientes entra rindo e sai cantando (se sua condição clínica assim permite). Nós, portadores da claustrofobia adquirida na 3ª idade, só podemos obter esses exames da mais alta tecnologia abaixo da mais baixa covardia: sob sedação. Nossa minoria entra desacordada e sai dormindo do pavoroso tubo.

A civilização sabe que por séculos e séculos os ritos religiosos prescreveram e continuam a prescrever velórios de 24h (e a lei assina embaixo). Assim, gerações e gerações foram sossegadas quanto à última viagem de seus entes queridos. Mas a desalmada correria dos nossos tempos, que quase não tem civilidade com os vivos, por que teria a mínima civilidade com os mortos?

Acho pouco 24h de espera. Plis, me garantam 36 ou 48h, e nunca mais volto a tocar no assunto.

Últimas 3º Neurônio

Boletim da Receita
Fábio Salvador | Receita Federal arrecada mais de R$ 146 bilhões em agosto
Boletim da Receita
Fábio Salvador | Receita Federal concentra vários serviços em novo aplicativo para celulares
Reportagem especial
Luciano Hang, o empresário patriota que dribla os impostos no Brasil
Boletim da Receita Federal
Fábio Salvador | Leilão regional arrecadou mais de R$ 2 milhões
Boletim da Receita
Está aberta a consulta ao 5º lote da Restituição do IRPF 2021
Boletim da Receita
Receita Federal realiza leilão regional de bebidas apreendidas no Rio Grande do Sul
Boletim da Receita
Fábio Salvador | Arrecadação federal de julho registra alta histórica
Humor
Em Camboriú, a lógica do urbanismo já foi atropelada: em vez de baixar o gabarito da orla para preservar o sol na praia, lá eles espicharam a faixa de areia. Talvez um dia invistam em Poa
Boletim da Receita Federal
Fábio Salvador | Prazo para regularização dos MEI é prorrogado
Neurônio | Humor
Fraga | Meis de Lurphy
Boletim da Receita Federal
Fábio Salvador | Imposto sobre propriedade rural agora pode ser parcelado via portal e-CAC
Opinião
Miguel Rossetto | Retomar o trabalho, o emprego e a renda
3º Neurônio | humor
Fraga | Decálogo Caótico
Boletim de Receita Federal
Fábio Salvador | Isenção do IPI para compra de carros vai mudar - entenda
3º Neurônio | ideias
Bolsonarismo, um caso de amor
3º Neurônio | humor
Fraga | Invernidades
Boletim da Receita Federal
Fábio Salvador | Microempreendedores podem regularizar débitos com a Receita até o fim deste mês
Boletim da Receita Federal
Fábio Salvador | Aberta a temporada do ITR
Opinião
Stela Farias | Proposta de pedágios do governo Leite vai cercar cidades
3º Neurônio | humor
Fraga | Cronometragens

Cristiano Abreu

Redação, sugestão de pautas e redes sociais
51 9 9962 3023
[email protected]

Rafael Martinelli

Editor
[email protected]

Roberto Gomes

Diretor
[email protected]

Ao reproduzir uma de nossas matérias, é ético citar a fonte.
As opiniões assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a posição do jornal.
Desenvolvido por i3Web.
2016 - Todos os direitos reservados.

Rua Osvaldo Aranha, 43 - Sala 5 - 94410-630 - Centro - Viamão - RS