Segunda, 10 de AGOSTO de 2020

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Crônica

Diário de confinamento - Quem se importa com as flores? 

Publicada em 02/04/2020 às 00h| Atualizada em 03/04/2020 às 11h23

João deitou na cama sem nenhum sono, preocupado com as notícias de fechamento de boa parte do comércio, apenas com a manutenção dos serviços essenciais, em função da quarentena. Sua atividade podia não ser essencial para conter a pandemia, mas era imprescindível para pagar suas contas. Além disso, mesmo não prestando um serviço com o fim de abastecer a sociedade das suas necessidades básicas, ele levava um pouco de alegria para a vida das pessoas. Não poderia isso ser considerado de extrema importância?

A quem estava tentando enganar. João era floricultor. Vendia buquês, arranjos, vasos, ferramentas, terra, regadores. Ninguém compraria nada disso agora. No dia seguinte, mandaria os funcionários ficarem em casa para não precisar pagar as despesas de transporte e alimentação. Será que podia fazer isso, legalmente falando? Azar. Continuaria pagando seus salários mesmo. Aliás, sem redução de custos, fecharia as portas de forma definitiva antes do confinamento acabar. A noite foi longa e agitada para ele, intercalando cochilos, reviravoltas na cama, delírios, ideias brilhantes para salvar a floricultura, volta a realidade para perceber que nada disso era praticável e um pesadelo.

Sem saber como chegou ali, como costuma acontecer nos sonhos, João se viu jogando futebol americano. Na vida real, ele jamais havia praticado a modalidade, sequer assistido uma partida. Sabia da existência do esporte apenas por filmes. De qualquer forma, estava ali e homens gigantes com armaduras corriam em sua direção para quebrar todos os seus ossos. Em suas mãos, ao invés da tradicional bola oval, ele tinha um lindo arranjo de flores, o qual sentiu que precisava proteger. Como jamais conseguiria manter o buquê em segurança dos adversário, fez o que seu instinto mandou e o arremessou para frente com toda força, como uma noiva que não quer nenhuma madrinha se casando no futuro.

Fechou os olhos esperando sentir um encontrão que não veio. Quando abriu, percebeu que estava correndo a toda velocidade com os braços estendidos. Ele havia jogado as flores para ele mesmo e agora precisava pegá-las, mas algo estava errado. Isso não fazia sentido. Nada daquilo fazia sentido. Mas assim são os sonhos. João não corria para pegar flor nenhuma. No ar, voando a uma velocidade incrível, um bebê. Seu bebê! O filho de dois meses estava fora do seu alcance. Não adiantava correr, ele não iria alcançá-lo, sabia. Mesmo sabendo que não chegaria a tempo de pegar a criança com segurança no ar, correu e correu e... acordou.

Ele costumavam passar o dia recebendo clientes e conversando com funcionários na floricultura, mas hoje estava sozinho. Apesar das ordens da prefeitura, abriu normalmente, mas ninguém veio mesmo, então somente estava sujeito a receber uma multa. Mas quem descumprisse a orientação seria multado? Tentou lembrar as informações divulgadas nas rádios, tevês e jornais no dia anterior, sem sucesso. Durante a janta, questionou sua esposa que também não soube responder. Planejaram como agir nos próximos dias e decidiram usar o recurso mais disponível do momento: o tempo.

De nada adianta esperar clientes que não aparecerão, então usaram o tempo livre para gravar vídeos, tirar fotos e criar todo tipo de conteúdo de marketing para ser divulgado em suas redes sociais. Lembrou que seu objetivo como floricultor era exatamente deixar a vida das pessoas um pouco mais leve, por isso todos os dias publicava dicas de como cuidar das plantas durante a quarentena. Também desenvolveu um método de atendimento com hora marcada e, se alguém precisasse, mandaria entregar os produtos em casa.

A redução do movimento permitiu que ele passasse mais tempo com seu filho recém-nascido e sua esposa. Conversavam e planejavam muito os próximos passos da vida financeira e também familiar. Sem pressa e com bastante cautela, porque se tem algo que esse vírus ensinou para ele é que ações irresponsáveis para minimizar os custos e maximizar os lucros podem acabar custando muito caro. Assim, pensando cada etapa, sem medidas drásticas, encontrou uma forma de pelo menos sobreviver nesse período turbulento.

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Cristiano Abreu

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