Segunda, 25 de MAIO de 2020

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Coluna do Gustavo

Diário de confinamento - Vida de outono

Publicada em 09/04/2020 às 00h| Atualizada em 09/04/2020 às 23h13

O outono havia chegado. Segundo o calendário, fazia algumas semanas que já tinha começado, mas o calor dos dias não combinava com a mudança da estação. Contudo, após uma noite de chuva e queda brusca na temperatura, ficou claro que o verão se despediu de vez. Nesta mesma noite, Marcos tentou fazer o que costumava desde o final do ano passado, quando abandonou seu cargo de servidor público para se dedicar exclusivamente ao sonho de abrir seu restaurante. 

Todo seu planejamento tinha desabado no momento em que foi anunciada a quarentena. Com o dinheiro acabando e as contas aumentando, o peso de não saber o que poderia acontecer o fez largar o desenvolvimento do seu projeto e pegar um livro para se distrair. Esta noite, encerrou suas atividades de forma diferente das anteriores. Enquanto lia, teve vontade de chorar. Não pela trama do que estava lendo, mas pelo dia que teve. Leu e chorou em sua poltrona até dormir.

O motivo de seu choro? Mais cedo naquele dia o telefone tocou e ele já sabia a notícia que receberia. Recebeu com o aperto no coração de quem sabe que o mais difícil ainda está por vir. Seu avô faleceu. Tinha oitenta anos e fumou a vida toda. Na verdade, a vida toda não. Só até quase os sessenta, quando foi diagnosticado com câncer, contra o qual lutou durante cinco anos e venceu, mas a batalha deixou suas marcas. Agora, ao contrair o vírus, seu pulmão debilitado não resistiu e se entregou após dois dias na UTI.

Marcos teve que sair de casa para ir ao enterro e pôde sentir o sol no rosto, esquecendo um pouco o frio. No caminho, pensava que nunca mais discutiria receitas com o vô e que não o levaria para a inauguração do seu restaurante. No funeral, encontrou seu irmão muito abatido. O irmão não entendia como ele podia estar tão calmo com aquela situação. Sempre soube que Marcos era o mais apegado ao avô. Encerrada a cerimônia, conversaram sobre como estavam se sentindo.

- Todos os dias eu agradecia por poder viver com ele - explicou Marcos - Acho que por isso esta despedida, dolorida como todas são, se tornou um pouco mais suportável.

Continuaram conversando e entenderam que, até neste momento, deveriam ser gratos por poder visitar o avô no hospital e realizar a cerimônia de enterro. Algo que, pelo que entenderam das notícias nos jornais, na Espanha ou na Itália não era possível. Pensaram em comentar que em alguns países da América Latina corpos eram embalados por familiares a espera do serviço funerário. Serviço tão deficitário que a espera poderia durar dias. Mas preferiram não falar sobre isso.

Um vento fez os dois lembrarem como estava frio e que de nada adiantaria ficar mais tempo ali. Se despediram e foram para suas casas. Mesmo depois de chegar, Marcos não se sentiu mais aquecido. A temperatura interna era tão ruim quanto na rua. Era impossível evitar, o outono havia chegado.

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Cristiano Abreu

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