Segunda, 25 de MAIO de 2020

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Coluna do Gustavo

Diário de confinamento - Fernando e seu bonsai

Publicada em 16/04/2020 às 00h| Atualizada em 17/04/2020 às 12h39

Como muitos da sua geração, Fernando não suportava mais o trabalho. Por isso, em dezembro de 2018, decidiu dar adeus ao chefe. Guardou o diploma universitário na gaveta e também deu um tempo da profissão. Juntou as economias e disse até logo ao Brasil. Foi para o Japão estudar a arte milenar do bonsai. Para quem não sabe, bonsai é uma forma de horticultura cujo objetivo é miniaturizar árvores grandes e exuberantes a ponto de caberem em vasos. Para Fernando, a arte também é uma filosofia de vida.

Todo o ano de 2019 foi de grande aprendizado e superação de obstáculos. Primeiro quebrou a barreira do idioma (os cursos online após os expedientes na terra natal realmente serviram.) Depois, foi conseguir emprego, porque não estava lá a passeio e sua intenção não era viajar para o outro lado do mundo e se contentar com qualquer trabalho. Algumas semanas e algumas entrevistas depois, bem quando o dinheiro acabou, foi contratado em uma tradicional escola/estúdio/viveiro de bonsai. Atingiu sua maior meta do oriente: trabalhar e aprender mais sobre técnicas, espécies e como fazer a arte virar um negócio.

As tarefas eram maçantes porque Fernando estava na parte mais baixa da cadeia hierárquica da escola e a cada ordem que recebia lembrava das frases que ouviu dos conhecidos quando ainda estava no Brasil e avisou sobre seus planos. "Ficou louco?", "vai abrir mão do que tu tem aqui?", "e a tua reputação?", foram alguns dos questionamentos que teve que aguentar. Mas o conhecimento adquirido valia a pena. Além do mais, quando achava que estavam se intrometendo na sua vida, repetia para si mesmo:

- Sempre tem um metido falando bobagem e não posso focar nisso porque meu foco está reservado ao inteligente que fala algo interessante.

O retorno estava marcado para março de 2020, mas apesar de cheio de projetos para botar em prática assim que chegasse, Fernando precisou adiar seus planos e ficar em observação logo que botou os pés em território brasileiro. Depois, com o distanciamento social se tornando uma realidade, ficou confinado no apartamento sem poder ver, abraçar ou beijar os entes queridos. Na cultura japonesa ninguém se encosta, então para ele, longe dos amigos e familiares e sem contato humano por muito tempo, a saudade bateu forte. A impossibilidade de executar os planos agravou a situação e, meio deprimido, ligou para seu pai para pedir conselhos.

Disse que era a primeira vez que sentia dúvida de suas escolhas. Pensava se tudo que falavam antes talvez estivesse certo sobre sua reputação e tudo mais, já que agora ele estava sem atividade, com a carreira estagnada e sem dinheiro. Pediu desculpas por talvez estar falando coisas sem sentido, achando que não conseguia se expressar direito.

- Filho, nessa quarentena eu estou maratonando séries e, por coincidência, anotei uma frase pra ti aqui. "A reputação é um apêndice ocioso e enganador, obtido sem merecimento e perdido sem nenhuma culpa." Então, não se preocupa tanto com isso. Tua reputação é uma construção do que os outros pensam de ti. E também não se importa muito com isso que estou dizendo, porque eu posso falar e falar e não dizer nada. É normal. Estamos todos tentamos nos expressar. Segue a tua busca fazendo o que tu acha certo sem pedir desculpas por achar que disse algo sem muito sentido.

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Cristiano Abreu

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