Segunda, 25 de MAIO de 2020

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Coluna do Gustavo

Diário de confinamento - Camila e seu recém-nascido

Publicada em 23/04/2020 às 00h| Atualizada em 27/04/2020 às 14h42

Depois de se formar na melhor universidade privada de sua cidade, Camila foi efetivada na empresa onde estagiava. Com apenas 23 anos, um diploma em administração de empresas, seu bom emprego e boa vontade, planejou sua vida até os trinta anos, quando pretendia estar casada, grávida do primeiro filho e ganhando um salário com no mínimo cinco dígitos. Cada etapa demonstrou ser bem mais difícil na prática do que ela havia imaginado, mas seu espírito determinado não permitiu o desânimo ganhar força.

A primeira grande dificuldade foi crescer na empresa, não importando o quanto ela se especializava e cumpria suas metas, sua remuneração não era condizente com suas ambições. Somente quando ela entendeu que para ganhar mais dinheiro precisava fazer a empresa ganhar mais dinheiro, sua vida financeira melhorou. Estudou, tornou-se mais competitiva, excluiu colegas de trabalho dos círculos mais íntimos e aprendeu a fechar acordos com negociações agressivas. Mudou sua personalidade completamente. Nunca ganhou os tão sonhados cinco dígitos, mas estava cada vez mais perto.

Para se casar, Camila precisou arriscar. Namorava o amor de sua vida desde a adolescência, um antigo colega de colégio. Moravam juntos há cinco anos e isso não parecia ser suficiente para ele se decidir e pedir a mão dela em casamento. Quando foram para Europa comemorar os dez anos de namoro e voltaram de lá apenas como namorados, ela disse que queria se separar. Claro que não queria. Sua intenção era exatamente o contrário. Por sorte ele entendeu e, aos vinte e oito, ela estava casada.

Faltava apenas a gravides. Sua imaginação a levou a crer que isso não seria um problema, afinal dois anos de matrimônio seriam mais que suficientes. O problema era seu marido inseguro e indeciso. Para ele, primeiro precisavam se estabelecer melhor. Segundo, o emprego de ambos exigia demais e tempo era um bem quase indisponível. Terceiro, como estavam casados há poucos anos, não precisariam ter pressa. O trauma de esperar demais para receber uma proposta de casamento, junto com as desconversas do parceiro, estavam tirando seu sono. Os estresses no trabalho também não ajudavam. Assim, um dia, aos trinta e um anos, depois de uma jornada exaustiva, Camila acabou esquecendo de tomar seu anticoncepcional.

Como seu bebê nasceu alguns meses antes da virada do ano, em março sua licença maternidade acabaria. Precavida, já tinha entrevistado inúmeras babás e escolhido a melhor. Contudo, apesar de tudo pronto para voltar ao trabalho, a ideia de encarar o chefe e os colegas, e principalmente de deixar seu recém-nascido sob os cuidados de uma estranha, não pareciam mais fazer tanto sentido. Sem sucesso, buscou alternativas para desenvolver uma carreira que permitisse um convívio mais próximo do lar e maior contato com o filho, mas não encontrou nada concreto. Com um aperto no coração, rezou e pediu a Deus força para encarar aquela situação.

Os céus não atenderam seu pedido de se tornar mais forte, mas, na sua visão, lhe deram mais tempo para pensar quando uma pandemia assolou o planeta inteiro e obrigou todas as pessoas a ficarem em casa. Resolvendo as questões do trabalho na sala do seu apartamento, apenas com um celular e um computador, enquanto embalava o berço com o pé, Camila questionou o chefe se não poderia continuar assim mesmo depois do confinamento. O "Claro que não" que ela recebeu não foi suficiente para impedi-la de perguntar se não poderiam chegar num meio termo, como trabalhar alguns dias da semana na empresa e outros de homeoffice.

A negativa, junto com o "aliás, vamos precisar que você faça horas extras porque tua ausência deixou algumas lacunas nas tarefas e não se fala mais nisso", a fez pensar se ao final da quarentena ela iria mudar de ideia e conseguiria aprender a apreciar o que realmente importa na vida.

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Cristiano Abreu

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