Segunda, 25 de MAIO de 2020

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Coluna do Gustavo

Diário de Confinamento - Carlos e a rotina

Publicada em 30/04/2020 às 00h

Carlos estava muito bem acostumado com sua rotina corrida. Na verdade, mais que costume, tinha adoração por fazer mil atividades todos os dias. Era sempre o primeiro a chegar no trabalho, o qual amava. Formado em arquitetura, podia passar horas compenetrado em cada minúcia dos projetos sob sua responsabilidade, sem se importar de visitar as obras para ver como estava o andamento e para manter uma boa imagem com clientes. Quando os colegas davam bom dia com cara de sono, se sentia melhor ainda por ter acordado às cinco e meia da manhã, se alimentado bem, corrido alguns quilômetros sentindo o vento no rosto e tomado aquele banho gelado para despertar de vez, deixando-o pronto para muita produtividade.

 

Para ele, um dia bom era um dia em que saia para a rua, cumpria tarefas e prazos, se exercitava, via e conversava com pessoas e voltava para o lar com a sensação de dever cumprido. Nesta equação, faltava apenas uma companheira com quem compartilhar experiências e planejar a vida. Carlos gostaria que fosse a vizinha do andar de baixo. Apenas tinham trocado alguns cumprimentos no corredor e uma vez ele ajudou a carregar as sacolas de compras até o apartamento dela. Mesmo assim, apesar do pouquíssimo contato, imaginava os dois comemorando aniversários de namoro e decidindo onde passariam as próximas férias. Era um romântico.

 

Mas tudo isso havia mudado. Agora, ao final de abril, tanto a praticidade quanto o romantismo dele completavam um mês de confinamento. Um mês inteiro saindo só para ir ao mercado ou à farmácia. Continuava trabalhando remotamente, mas com o baixo volume, os projetos já tinham sido entregues no início da semana e a energia acumulada demandava dele mais atividade. A atual rotina de ler livros e jornais, assistir séries e filmes, ouvir música e podcasts, jogar videogame, cozinhar, lavar a louça, de forma alguma supria a necessidade de sentir-se útil. Entediado ao final do dia, ligou o rádio e para sua sorte sintonizou bem no começo de um programa apenas de músicas, sem qualquer notícia ou falação.

 

O radialista parecia adivinhar seu gosto e acertava a seleção musical uma atrás da outra, a ponto dele se animar e aumentar o volume. Teve vontade de dar uma das suas tradicionais corridas, mas não podia, então fez o que pôde, realizou todos os exercícios de alongamentos e aquecimento que fazia antes de correr e sentiu-se mais disposto. Percebeu que sua calça de moletom de ficar em casa era muito quente e a tirou. Ficou só de cueca, camiseta e meias. Precisava gastar energia das pernas. Aumentou um pouco mais o volume e colocou o maior número de livros que couberam dentro de uma mochila, a abraçou e começou a fazer agachamentos. Pegou a dica em inúmeras lives de preparadores físicos e sabia que um dia seria útil.

 

Intercalou os agachamentos com apoios e abdominais e, em meia hora, estava pingando suor. Deitado no chão da sala, exausto, mal ouviu baterem na porta. Pelo olho mágico, viu aquela linda vizinha. Não acreditou. Ela usava uma máscara rosa que, junto com os lisos cabelos negros, emoldurava seus olhos claros. Certamente ela estava ali para pedir alguma ajuda. Ou será que, por causa do interminável confinamento, tinha se sentido sozinha demais e arranjado uma desculpa qualquer para ir falar com ele e ter sua companhia? Ele agradeceu aos céus e foi abrir a porta, mas lembrou-se que estava de cueca. Veste um calção. Tira a camiseta. Vai abrir a porta e para de novo. Resolve tirar as meias. Não queria parecer ridículo de calção e meias.

 

- Oi. Desculpa te incomodar. - enquanto ela falava, Carlos tirou uma máscara de dentro da embalagem e a colocou. - Eu queria te pedir um favor.

- Sim.

- Eu tô no meu apartamento assistindo umas séries... Eu até fico meio sem jeito.

- Sim.

- Te importa de baixar o volume?

- Si... baixar o volume? Ah, claro. Pode deixar.

 

Fechou a porta, se arrastou até o banheiro e ligou o chuveiro. Enquanto tirava o suor e a humilhação do corpo, pensou que a situação não tinha sido tão ruim. Embora breve, aquele momento contou como mais uma interação com a vizinha. E isso deveria ser considerado um ponto positivo. Da próxima vez que a encontrasse, perguntaria seu nome. E na próxima, a convidaria para tomarem um café. Torceu para que quando isso acontecesse, cafeterias, bares e restaurantes já tivessem voltado a funcionar. Tomara que acabe logo esse confinamento.

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