Segunda, 10 de AGOSTO de 2020

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Crônica

Coluna do Gustavo: A pressão da sociedade

Publicada em 02/07/2020 às 00h| Atualizada em 02/07/2020 às 18h27

Entendo perfeitamente quando alguém comenta comigo que jogar futebol com os amigos uma vez por semana é a sua terapia. Ou quem gosta de passar horas conversando com as plantas na varanda e diz que essa atividade é terapêutica. Juro que entendo, mas entender não significa dizer que eu concorde. Acredito que podemos enfrentar certos momentos em nossas vidas onde um determinado problema, ou a rotina maçante, ou o acúmulo de estresse torna fácil uma atividade mundana ser confundida com terapia.

Desenvolvi (se é que posso dizer que pensar comigo mesmo sobre um assunto é desenvolver) uma teoria sobre como, atualmente, compartilhamos uma necessidade. Cada vez mais percebo em pessoas que conheço, eu incluso, um sentir-se obrigado a produzir. Precisamos realizar. É necessário entregar algo para sentirmos que aquele dia, mês ou ano foi aproveitado. Mas entregamos para quem? A resposta fácil é: para a sociedade, óbvio. Uma resposta mais complexa seria que buscamos uma forma de validação de nosso pensamento, ações e personalidade. Para isso, precisamos pensar, agir e nos expôr.

Como desde cedo aprendemos que resolver problemas e ter a capacidade de cumprir múltiplas tarefas nos garantiria uma posição confortável na vida, acabamos acumulando tantas funções que não são de nosso interesse e nas quais nos é exigido muito que, quando praticamos uma simples atividade prazeirosa, ela passa a ser considerada uma válvula de escape para toda pressão que sentimos da... bem... da sociedade. Neste ponto eu retorno ao primeiro parágrafo e reforço que entendo quem considera uma terapia encontrar os amigos e jogar conversa fora na sexta à noite depois de suportar todo estresse da semana. Entendo, mas discordo.

Meu discordar começa por não aceitar que a sociedade exerça pressão. Ela não tem esse poder. Ninguém pode culpá-la por sentir-se pressionado a adquirir um carro novo só porque todos os amigos desfilam com seus zero-quilômetro. Ela também não cobra nada dos solteiros remanescentes enquanto os primos casados já vão para o segundo filho. Quem se sente diminuído por achar que seu carro é velho ou que está encalhado só tem a si mesmo para culpar. Para os que insistem em haver pressão da sociedade, esclareço que fazemos parte dela. Sabe aquele papo de "você não está em um engarrafamento, você é o engarrafamento"? Então.

Nos pressionamos por não ter o que imaginamos que queremos e botamos a culpa nessa entidade. Se esta culpa só for dissipada durante a prática do que nos traz paz de espírito e ajuda a esquecer dos problemas, pense o quão insuportáveis podem ser as atividades que atribuímos como indispensáveis para que confundamos as boas com um remédio. Qual o tamanho do mal causado a si mesmo durante infindáveis horas em que não é feito o que se quer, achando que está caminhando em direção ao seu objetivo, que por desfrutar de um pequeno momento de prazer, o considera a sua terapia?

Mas terapia é terapia. Acompanhamento profissional médico usado para melhorar nossa compreensão do mundo, das pessoas e de nós mesmos. E um hobby é um hobby. Fazer algo que gostamos simplesmente por ser algo que gostamos de fazer. Agora, se aceitarmos em nossa rotina hábitos que tornam a vida tão ruim a ponto de um único momento de prazer ser classificado como terapêutico, talvez esteja na hora de mudar de rotina, incluindo nela mais sessões de terapia, até chegar no objetivo final de pular de divã em divã e fazer da própria vida o nosso tratamento.

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Cristiano Abreu

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