Quarta-feira, 25 de NOVEMBRO de 2020

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Crônica

Coluna do Gustavo | As coisas vão mudar

Publicada em 20/08/2020 às 00h

Gosto de acompanhar as mudanças pelas quais passamos e de analisar nossa facilidade de adaptação com o mais confortável. É fácil se acostumar com o que é bom. E não há nenhuma dúvida sobre a realidade estar mudando em ritmo cada vez mais acelerado, com os benefícios nos alcançando em tempo recorde. Mas há um problema. Se não nos mantivermos atentos e acompanharmos esse ritmo, ficaremos presos ao passado e nossa utilidade para a sociedade será primeiro questionada e depois descartada sem culpa.

Um motorista da Uber me disse que anos atrás ele havia investido o valor de um imóvel em duas licenças para táxi. Com a chegada dos aplicativos de transporte, não conseguia mais passageiros. Tentando acompanhar as mudanças tecnológicas, ele migrou. Sobre as licenças e seu investimento, primeiro tentou vendê-las por muito menos do que pagou. A ausência de interessados o levou a oferecer como doação para conhecidos. Nem assim obteve sucesso e optou pela simples baixa. Perguntei se agora, pelo menos, ele estava faturando bem e conseguindo se sustentar. Com voz desolada disse que sim, mas que não duraria para sempre.

Na tentativa de se manter atualizado para antecipar a próxima mudança e estar preparado para quando ela viesse, descobriu que empresas de transporte eram as maiores investidoras em veículos automatizados. O futuro seria sem motorista. Do jeito e na velocidade que tudo estava mudando, ele disse se sentir um Rip van Winkle. Rip é um personagem lendário estadunidense. Um preguiçoso que um dia subiu uma montanha, bebeu, adormeceu e quando acordou, décadas tinham passado e ele estava velho e grisalho e o mundo como ele conhecia havia se transformado completamente. Apesar de ter envelhecido, van Winkle representa alguém congelado no tempo, com costumes ultrapassados e incapaz de navegar na sua sociedade.

Concordo com meu motorista. O futuro será de carros autômatos e entregas feitas por drones. Será de impressoras 3D e de inteligência artificial. Todos os problemas que alguém precisa do conhecimento de outra pessoa para resolver, serão resolvidos por aplicativos com informação e acúmulo de dados universais. Advogados, contadores, médicos, administradores, engenheiros, professores, serão substituídos pela inteligência artificial do dia para a noite. Nossas habilidades mais humanas e criativas também estarão amaçadas quando computadores alcançarem a capacidade de nos entreter melhor do que nós mesmos, encerrando a carreira de roteiristas, músicos, escritores, palestrantes, publicitários, apresentadores.

Além disso, dentro de cada lar existirá uma impressora 3D, iniciando uma nova forma de consumirmos. Nunca mais sairemos para comprar uma roupa. Mandaremos imprimi-las. O prato caiu e quebrou? Peraí que vou mandar imprimir um. E antes mesmo de eu encostar na impressora, ela já vai estar me disponibilizando algumas opções porque minha casa inteligente estava ouvindo a conversa. A tecnologia 3D não se limitará a estes objetos estáticos, também conseguindo, por incrível que pareça, imprimir eletrodomésticos, tablets, controles de videogame, câmeras. Há quem diga que um dia serão impressos órgãos humanos. Como tudo isso mudará nosso pensamento sobre manufatura e distribuição, nossa forma de ver a compra e venda de bens sofrerá grandes alterações.

Pensando na lenda mencionada pelo motorista da Uber, discordei do fato dele se comparar com Rip van Winkle. A moral daquela história é nos fazer refletir sobre como pode o tempo passar e como podemos acordar um dia velhos e décadas ultrapassados. Este não é o caso dele, tentando se manter atual e perdendo para a velocidade das mudanças, sua realidade me lembra um personagem do folclore japonês: Urashima Taro. Um pescador que, ao fazer o bem, foi recompensado com alguns dias em um reino mágico, mas quando decidiu voltar ao normal, séculos tinham transcorrido.

Esse conto me parece mais condizente com nossa época, porque mesmo nos esforçando para permanecer relevantes na sociedade, a evolução é tão rápida que centenas de anos podem avançar sem que a gente perceba ou envelheça. E não adianta nada tentar lutar contra as mudanças, porque as coisas vão mudar. Da mesma forma que no início, apesar de proibidos, a população usava aplicativos de transporte por causa da praticidade, se proibirem a evolução de soluções jurídicas, médicas, contábeis e administrativas, ou da criação de livros, músicas, artigos e enredos, os indivíduos e as instituições que os defendem podem protestar o quanto quiserem, se a sociedade achar melhor - e vai achar - o diploma ou a reputação valerão tanto quanto uma licença de taxista em época de transporte sem motorista.

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Cristiano Abreu

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