Terça-feira, 26 de MAIO de 2020

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Cai ou não cai?

Aliado de Russinho, vereador doou máscaras ao município compradas com parte do salário recebido

O que passa na cabeça do Jessé e dos adversários? A queda de braço vai longe

Publicada em 15/05/2020 às 00h| Atualizada em 22/05/2020 às 16h10

Certa vez ouvi de um ex-editor chefe muito bem relacionado em Santa Catarina que jornalistas estão sobre uma planície, verticalmente nivelados. Quem estica mais a cabeça, consegue aparecer no meio da multidão. Ao que acrescento: mostrar a testa pode render um escalpo. Subir demais coloca o pescoço ao alcance da machadinha.

Vale o mesmo para os políticos. Uns se indispõe internamente, outros se destacam mais do que caciques. Seja qual for o motivo, a vaidade cria a brecha, e quem for mais rápido faz o serviço. 

Mente de político é sempre uma incógnita. Amor e ódio surgem quando melhor convém. Tal qual é a situação de Jessé Sangalli. Tentou ficar maior que os outros na planície, agarrado na bandeira da Ipiranga até Viamão. Subiu mais que alguns dentro do PSDB, peitou os caciques, teve que mudar de partido. Seguiu esticando o pescoço demais, escolheu trocar de cidade.

Desde que anunciou a mundança de domicílio eleitoral para concorrer a um mandato em Porto Alegre, aliados de outrora viraram inimigos, e vice-versa, pelos interesses mais diversos. Agora, machadinhas voam de todas as direções. 

Virou caça à cabeça de Jessé.

Querendo a vaga de suplente na Câmara, o PSDB entrou com denúncia no Legislativo pedindo abertura de Comissão Processante para retirada do cargo do Jessé no dia 13 de abril. Havia previsão de leitura na sessão de 16/4, mas os tucanos pediram que o material fosse apreciado pelo plenário após o dia 30, pois fecharam acordo com Jessé e com o Cidadania pela renúncia do parlamentar. Quando ficou evidente que ele não entregaria o mandato, o PSDB retirou a denúncia da pauta, tentando evitar a reprovação. 

Ocorre que na mesma sessão em que o ex-partido de Sangalli fez a manobra, o DEM, do vereador Evandro Rodrigues, entrou com denúncia de mesma natureza, aliás, um control + C, control + V (copia e cola) da melhor qualidade do pedido tucano minutos antes retirado. O texto foi lido, votado e reprovado.

Assim, Evandro, outro ex-PSDB, garantiu o voto do Jessé para o governo nos projetos. Jessé, por sua vez, pode usar a reprovação em sua defesa, já que a Câmara não o afastou. Numa semana, Evandro faz vídeo apoiando o Jessé. Dias depois, o partido de Evandro entra com a denúncia pela cassação, que, como já esperava, não daria em nada. Agora, ambos votam juntos.

Baita jogada.

Para salvar sua pele, Jessé jogou bem. Ganhou apoio no Legislativo, mas não convenceu a Justiça. E é aí que o pulo fica maior que a perna. A última movimentação do processo que trata a questão da sua transferência de domicílio traz o entendimento da promotoria do Ministério Público Eleitoral (MPE) de que ele precisa renunciar, ou seu título volta para Viamão.

Eis o trecho:

...no exato momento em que se der a transferência de domicílio para Porto
Alegre, o impugnado perde o domicílio em Viamão e, portanto, a condição inderrogável de ser
vereador naquela cidade. Logo, de duas uma, ou o impugnado desiste da transferência de
domicílio, ou comprova ter renunciado ao mandato em Viamão desde a data em que a
transferência de domicilio deva contar, ou seja, o dia 6 de maio de 2020.

 

 

Em resumo, no dia 13 de maio, a promotoria pediu prazo para Sangalli comprovar renúncia ao mandato em Viamão. Caso não fosse cumprido em 24 horas, portanto na última quinta-feira (14), solicita o cancelamento da transferência de domicilio.

Advogados de Jessé tentam questionar a legitimidade do pedido de impugnação, feito por meio de ação popular. Há também toda uma pormenorização da defesa acerca do domicílio oficial mantido em Viamão e de um endereço de trabalho em Porto Alegre para validar a transferência do título eleitoral. Mas a contestação é questinada.

É o que diz a promotoria:

..é o próprio impugnado que continua a apregoar nas redes sociais, inclusive para justificar-se perante seus eleitores em Viamão, que sua família continuará a residir em Viamão, que seus interesses continuarão em Viamão, e que continuará a trabalhar politicamente em Viamão. Logo, não há o "animus" de, de fato, transferir algum interesse de interferência nas questões políticas e de participação para esta Capital. Desse modo, se os interesses preponderantes de interferência política do impugnado continuam sendo Viamão é lá o seu domicilio eleitoral, não aqui (Porto Alegre).

 

 

Repito: é machadinha de todo lado. Jessé quer concorrer na Capital, mas até lá, pretende ficar na Câmara de Viamão. Contudo, pode ficar sem nem um, nem outro. Se perder a transferência de domicílio, difícilmente concorrerá por aqui. E mesmo que sobre a ele a cadeira de vereador em Viamão, a debandada política pegou mal pelas terras onde a prolongação da Avenida Ipiranga ficou só na promessa.

Tem ainda toda a questão de filiação partidária, que ainda vai dar muito pano para manga. Mas isso fica para outra história.

Para justificar o salário que recebe do Legislativo viamonense, Jessé está doando 50% do valor. Ontem comprou e entregou ao prefeito Russinho, aliado de ocasião, 300 máscaras para a prevenção ao coronavírus na cidade. E quanto mais tenta recuperar a imagem, mais arrisca o próprio escalpo.

E como nunca se sabe o que sai da cartola de político, resta aguardar. Fato é que um vereador de primeiro mandato que saiu do PSDB se dizendo vítima da velha política, de perseguição, denunciando conchavos e acordos, usa das mesmas estratégias para sobreviver. E o povo tucano, feito marido traído, está saboreando o desfecho, enquando briga pela cadeira de suplente.

 

O que diz o vereador

Horas após a publicação da coluna, recebi o contato da assessoria do vereador, que me pede para acrescentar: 

Sobre o prazo para apresentar renúncia:

"Esse ponto não é bem assim. O que acontece é que um promotor do MPE opinou por isso. Apenas o juiz pode peticionar e deferir ou não."

Sobre acompanhar os votos governistas:

"O Jessé não está votando ou votou com o governo em troca da 'salvação'. Logo depois da própria votação dele, teve votação do governo para aumento do salário dos funcionários e ele votou contra, Assim como fez em outras ocasiões e continuará fazendo."

"...futuros que envolvam pontos ideológicos serão feitos de forma independente, as vezes acabando por agradar a oposição/esquerda as vezes acabando por agradar a situação/direita. É a sina de todo liberal."

Eis a versão. Aguardemos os desdobramentos, pois a única coisa certa até aqui, é que essa queda de braço não acaba tão cedo.

 

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