Quinta-feira, 13 de AGOSTO de 2020

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Crise do Coronavírus

Quando símbolos tentam mascarar ações: Se vivo, como agiria Tapir Rocha durante a pandemia?

Publicada em 16/05/2020 às 00h| Atualizada em 02/06/2020 às 17h07

Na sexta-feira (15), o busto em homenagem a Tapir Tabajara Canto da Rocha, considerado a maior figura política de Viamão, no Centro, amanheceu com máscara. A sacada obedece uma tendência mundial de usar monumentos e outras peças do mobiliário urbano para destacar a prevenção ao novo coronavírus. Nada a reparar até aqui, mas tudo que se segue é passível de crítica.

Sempre briguei com a tendência da sociedade em valorizar mais a forma do que o conteúdo. É uma prática segregadora, desleal a ponto de distorcer a realidade. Infelizmente, é o conceito que rege a publicidade. Discorda? Então pare e pense se você nunca comprou algo de que não precisava só pela embalagem, ou se apaixonou por alguém pelo que aparentava e depois se arrependeu.

“A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. A frase atribuída ao ditador/pretor Júlio César (63 antes de Cristo), representou o pensamento do Império Romano por décadas e mostra que por a imagem acima dos fatos é recurso mais velho do que se imagina.

De volta a 2020, os exemplos se multiplicam. Seja Bolsonaro usando máscara enquanto nos bastidores diz "E daí?" para as mais de 15 mil mortes pela COVID-19, ou Russinho de viseira no gabinete assinando decretos sem pé nem cabeça. Tanto faz se o presidente põe máscara (quase sempre virada) apenas para dizer que está com uma no rosto, ou se Russinho manda cobrir o busto do Tapir. As ações práticas de ambos são os verdadeiros símbolos de como de fato encaram a pandemia. 

Do decreto 018/2020, o primeiro tratando da COVID-19, até o 050/2020 de ontem (15), o que se vê é descaso com a população. São textos ambíguos, com erros de informação e meramente copiados de outras cidades. Pior, não são fiscalizados, ou seja, apenas para constar juridicamente e evitar complicações com o Ministério Público. É a máxima romana de "parecer honesto".

Nesta manhã em que a cidade completa dois meses das primeiras normas em Viamão, o comércio não essencial estava liberado para funcionar duas horas a mais por dia. As porteiras se abrem mais e mais, enquanto a doença avança. Nos números de ontem, quando o Tapir virava símbolo da resistência contra o vírus, o município tinha 33 casos confirmados, uma morte, quatro pessoas internadas e sete se recuperando em casa. E na mesma sexta-feira, o decreto 050/2020 dava a benesse aos empresários de voltarem praticamente aos horários de antes da pandemia.

Maio é o pior momento do coronavírus em Viamão. É o mês do primeiro óbito e do salto de 50% nas infecções - são 11 em 13 dias ( de 1º a 13/5), contra 22 em 41 dias (entre 21/3 e 30/4). Quem se apega na baixa incidência, na comparação com outras regiões do país, vibra quando a caneta do Russo se agita.

É tanto descaso do prefeito em exercício com a crise de saúde que ele próprio não lê o que assina. Ou é isso, ou não entende o que está lendo. Se ao menos passasse os olhos, não rabiscaria um decreto que não tem o artigo 3º, que tem artigo 9º sem redação, que após o 9º repete do artigo 4º ao 9º (agora sim com redação) e só então retoma do 10º. O pior de tudo é que o 050/2020 foi editado para corrigir o decreto 048/2020, publicado um dia antes. Portanto, outra correção (dessa vez reparando o 050/2020) deve aparecer na segunda-feira (18).

 

Reprodução do artigo 9º do decreto municipal 050/2020 com erros de redação: do 9º para o 4º

 

Um gestor público que assina sem saber o que está tornando norma ao menos deve ter gente de confiança que acerte na redação, ou leia em seu lugar. O mesmo vale para o secretário de Administração, Orlando Gomes Júnior, que empresta seu nome aos textos.

Assim como está, nenhum dos dois consegue transmitir a imagem necessária de honestidade.

Em comum aos erros na construção das normas, está a falta de fiscalização. Ou alguém acredita que o transporte público está cumprindo as restrições de ocupação dos coletivos e oferecendo as condições de higiene preconizadas nos decretos? É só dar uma olhadinha nos ônibus nos horários de pico.

Quantos respiradores foram comprados? Quantos testes para a COVID foram realizados na população? Por que usar a pandemia como justificativa para suspender sindicâncias, processos administrativos, punições e impedir a exoneração de cargos comissionados (CCs)?

Se o trabalho fosse de fato sério, mandariam dar jeito nas filas na porta da Caixa Federal do Centro, distante apenas uma quadra do busto do Tapir e do Gabinete do Prefeito. 

 


Reprodução do artigo 56 do decreto municipal 048/2020

 

Enfim, Viamão enfrenta o corona "para inglês ver", seja por culpa do negacionismo pregado pelo presidente, pela falta de habilidade ou descaso das autoridades políticas da antiga Capital. E muitas dessas figuras são as mesmas que usam a imagem de Tapir para tentar transmitir seriedade.

A julgar pelo que escuto da biografia do homem considerado o mais expressivo entre os gestores públicos que o município já teve, não tenho dúvidas de que ele usaria máscara. E jamais levaria a pandemia nas cordas a ponto de assinar documentos sem ler.  

 

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Cristiano Abreu

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