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Homem por trás do afastamento de André Pacheco rompe o silêncio um ano após denúncias que deram origem à ’Lava Jato’ de Viamão

Publicada em 13/07/2020 às 00h| Atualizada em 22/07/2020 às 17h55

Falas firmes, ditas sempre em tom de voz sereno, demonstram um pouco da personalidade de Rafael Bortoletti, ex-secretário-geral de governo de André Pacheco. A moderação constante, no entanto, contrasta com a contundência do conteúdo que ele traz novamente ao debate público.

Entre um chimarrão e outro, o gestor que começou a vida política na gestão de Valdir Bonatto e foi homem forte de Pacheco retorna à cena e fala com exclusividade ao Diário de Viamão sobre os dias que antecederam e originaram a denúncia do Ministério Público resultante no afastamento do chefe do Executivo eleito. Bortoletti relembra também brigas, ilações e articulações políticas que impactaram sua vida pessoal e profissional.

- Eu fiz o que fiz, não me arrependo de nada, e faria de novo. Volto agora porque o povo precisa saber a verdade, não posso mais ficar calado - garante.

Confira o que diz o principal personagens por trás das denúncias sobre o maior esquema de corrupção da história do município e conheça os bastidores da Operação Capital - a "Lava Jato de Viamão":

 

Diário de Viamão - Como se deu o teu ingresso na Prefeiutra, qual o teu papel na gestão de André Pacheco e quais ações te levaram a desconfiar que algo não estaria certo nos procedimentos da Administração?

Rafael Bortoletti - Comecei com o Bonatto, trabalhei os quatro anos, ele me apresentou ao André. Já na época em que descobri o esquema, era secretário, as demandas do gabinete passavam por mim, e eu comecei a receber algumas demandas que não teriam razão de existir. Eu tinha conhecimento técnico e dizia, "André, isso aqui não tem como ser feito", "isso aqui já existe". E ele não podia dizer a mim o motivo real. Naquele momento, eu passei a ser uma pedra no sapato. E ele foi avançando, começou a ter relação com políticos, pessoas que passaram a cobrar dele poder, negócios. 

 

DV - Qual a influência dessas relações?

Rafael Bortoletti - a gente tinha um grupo de discussão e trabalho do gabinete no WhatsApp. E a gente via que ele (prefeito) tinha uma reunião com um político aqui, com um empresário ali, e logo que acabava ele mandava pagar as empresas. Num primeiro momento, achei que o André estava sendo usado por essas pessoas (políticos e empresários). Nós, do gabinete, sempre tentamos trazer ele (André) "de volta pra luz", a gente achava ele um cara do bem.

 

DV - Quando tu falas manipulado, citas a influência de quem?

Rafael Bortoletti - Do Dédo (​Éderson Machado, Secretário Geral de Governo afastado pela Justiça), do presidente do MDB, procurador-geral do município (Jair Mesquita, também afastado) e de outros políticos que tinham influência sobre ele (Pacheco).

 

DV - E até quando isso durou?

Rafael Bortoletti - Até o dia em que surgiu uma relação com a empresa que cuidava da publicidade da Prefeitura... o funcionário (nome preservado pela coluna) soltou para algumas pessoas, não sei te dizer se por inocência, que recebia uma espécie de "salário", "complementação", "abono", de R$ 1,5 mil dessa empresa. Aí eu comecei a ligar os fatos.

 

DV - Qual a tua posição diante disto?

Rafael Bortoletti - Eu chamei este funcionário e gravei ele falando. A intenção era levar isso pro André. E no meio da conversa, o cara me diz: "Eu tratei isso com o André, foi ele que me indicou esse caminho" Aí eu vi que o André não era o manipulado... era o André que manipulava. Mas ele (funcionário) chegou no André antes de mim e eu fui demitido.

 

DV - E o que ocorreu depois?

Rafael Bortoletti - Teve a denúncia na RBS, em que o André procurou se defender, porque ele sabia que eu estava de posse da gravação, que eu sabia das falcatruas. Ele tinha essa empresa de publicadade ao lado dele... essa empresa tinha muito acesso à Imprensa. Ele (Pacheco) marcou a entrevista e levou a informação de que existia um grupo sabotando... a "organização criminosa". E ele debitou a esse grupo tudo que aconteceu na Prefeitura, só que quem conhece o poder público sabe que não passa um pagamento sem a assinatura do prefeito... no mínimo, passa por dois, três. Se existe uma falcatrua na Saúde, tem que passar pelo secretário, pelo contador, pelo secretário da Fazenda e pelo prefeito.

 

DV - Ele te colocou como responsável do suposto esquema?

Rafael Bortoletti - No meu entender, ele (Pacheco) se defendeu manchando a minha imagem, para que a minha palavra não tivesse força para a sociedade. Ele criou uma narrativa, usou toda a força da Prefeitura contra mim.

 

DV - E Qual a tua posição diante disto?

Rafael Bortoletti - Minha primeira ideia era levar a ele (prefeito). Como vi que ele estava articulado o sistema, levei para a Câmara. Fui praticamente implorar num gabinete de oposição para que abrissem a minha CPI, a que estavam me acusando, mas queria que abrissem também a dele, era a maneira de ver quem estava dizendo a verdade. Só que aí tu chega lá dentro e vê que a última coisa que querem é a verdade. É negociação política, eles aproveitam pra negociar. Na minha CPI, a da tal organização política, a oposição aproveitou pra brilhar... aquele circo em que não se tratou de nada.

 

DV - Por quê?

Rafael Bortoletti - A mesma denúncia que tiraria um prefeito de uma cidade séria pelo Ministério Público é arquivada em Viamão com dois meses, e desses dois meses com quatro reuniões de CPI. É sempre uma relação política, de bastidor.

 

DV - É por isso que resolves falar agora?

Rafael Bortoletti - Eu e dois amigos vamos lançar uma série contanto todos os bastidores do sistema de corrupção, item por item, passar informação por informação, personagem por personagem. Vamos contar. A partir do dia 13, às 19h, na internet, começamos a lançar os vídeos.

 

DV - O que tem nestes bastidores?

Rafael Bortoletti - Esse é um mundo desconhecido para a população. As pessoas não conhecem o que acontece numa sala de reuniões.

 

DV - E que exemplos tu me traz?

Rafael Bortoletti - Todas as ligações de políticos, de vereadores, de relações empresariais, de interesses pessoais. Tudo vai estar na série, com documentos. Vamos lançar os documentos e a população vai saber quem está dizendo a verdade.

 

DV - E o que a série revela destes bastidores?

Rafael Bortoletti - Um personagem (André Pacheco), que não estava sozinho, que faz parte de um sistema de corrupção muito maior do que as pessoas imaginam, e que tem peças desse sistema que ainda estão gerindo o poder. Vou dar nome aos bois, contar a trajetória de cada um... não vou fugir de nada.

 

DV - Por que somente um ano depois?

Rafael Bortoletti - Fiquei esse tempo afastado e achei que a verdade precisava vir. Se não, são só dois loucos batendo boca, e a população não pode achar isso, não somos farinha do mesmo saco. Silenciei antes porque achei que a verdade tinha prevalecido, mas agora estão em rádios falando que foi briga política, que o verdadeiro culpado sou eu. Não estão mais com medo, se encorajaram, talvez por achar que o afastamento (do prefeito e de cinco secretários) é o fim.

 

DV - Tu falavas que este esquema ainda é gerido. O Sistema se mantém no Gabinete do Russinho?

Rafael Bortoletti - Digo que as mesmas pessoas ainda circulam pelo gabinete. Têm trânsito livre e influência.

 

DV - Existem muitas ilações sobre a tua relação pessoal com o André e com a família dele. Isso, inclusive é usado como moeda política, o grupo ligado ao André Pacheco cita que esse é o motivo da ruptura do gabinete naquela época. O que tu tens a dizer?

Rafael Bortoletti - Eu nunca fui amigo do André Pacheco. Tivemos apenas relação de trabaho. E o que se criou com relação à família dele nada tem a ver com o que está acontecendo. Tive uma situação privada, e, por causa dessa relação, a Polícia esteve na minha casa, só que esse processo foi completamente deturpado. Levaram informações plantadas para a Polícia... mentirosas... falsas. É uma situação privada, que expõe uma pessoa que não tem nada a ver com isso... até nem queria falar... mas ele expõe essa pessoa, usou como escudo por uma situação política.

 

DV - E como essa situação se criou?

Rafael Bortoletti - São fatos que ocorreram quando eu não estava no gabinete. Dividi essa situação pessoal com duas, três pessoas, com o tom de preocupação de que isso pudesse causar constrangimento ou outra coisa mais séria, risco de vida até. Só que uma dessas pessoas me traiu, foi lá e conto pra ele (André). Isso foi em abril (2019), já tinha acontecido o rompimento, RBS, tudo... Ele pegou aquilo e disse "opa. me serve pra sujar esse cara".

 

DV - E qual é o ponto de partida do esquema que tu relatas?

Rafael Bortoletti - A partir da ida do André para a Granpal (Pacheco assumiu a presidência do Consórcio da Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre em abril de 2018). Os movimentos que aconteciam... a todo o momento ele queria trazer pessoas. Não tinha necessidade nem caixa para isso. E o recebimento por fora do funcionário... quando fiquei sabendo, minha posição foi reunir provas, documentos públicos, todos disponíveis, que levei no Ministério Público, no Tribunal de Contas e vou mostrar na série. Repito, minha primeira posição era levar pra ele (prefeito), achando que ele não era o líder do esquema.

 

DV - Te arrependes de alguma coisa que envolva esse episódio?

Rafael Bortoletti - Eu fiz o que fiz, não me arrependo de nada, e faria de novo. Volto agora porque o povo precisa saber a verdade, não posso mais ficar calado - garante.

 

 

*A coluna mantém espaço disponível para que os citados na entrevista se manifestem.

 

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