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Crise do coronavírus

Os rostos e as famílias ignoradas: Viamão tem 101 vidas levadas pela COVID-19, enquanto seu povo e seus governantes fingem não ver

Publicada em 12/08/2020 às 00h| Atualizada em 18/08/2020 às 22h36

Pedro, Maria, Adélio, Janaína, Tatiana, Nereu, José, Valdir. Sorrisos que partiram sem aviso, abraços que não se repetirão... nomes, memórias que precisam ser respeitadas.

Nesta quarta-feira (12), Viamão ultrapassa oficialmente uma centena de vidas perdidas para a COVID-19. Hoje, listar uma por uma das vítimas do coronavírus seria o melhor modo de dar rostos à frieza dos números, trazer para a realidade coletiva a dimensão da tragédia que tirou, até aqui, 101 pessoas de suas famílias, que abreviou convivências e arruinou possibilidades.

Mas não será possível. Por hora, dor e inconformismo manterão o luto no anonimato.

Entendo e respeito a posição das famílias. Contudo, a vergonha tinha que partir do outro lado. Enquanto quem não tem culpa sofre em silêncio, negacionistas e inconsequentes desfilam egoísmo pela cidade. É assim desde a primeira morte, em 11 de maio. E digo, com tristeza, que ruas, parques e gabinetes políticos mostram que o descaso com o vírus é o mesmo três meses e 100 óbitos depois.

A ignorância (no sentido de desconhecer) e o poder econômico são incansáveis e explorados com maestria. Até mesmo o mais bem intencionado sucumbe. Enquanto reproduzem o discurso de que “todos os devidos cuidados estão sendo adotados”, a pressão pelo lucro aumenta. Nos bastidores, os cidadãos de bem, pais de família e bons moços barganham vidas. Sim, é isso que fazem ao dizer que não há como evitar a evolução do contágio e que seus negócios não podem morrer; Ao usar os empregos e a influência de seus impostos como desculpa. É a mensagem que deixam ao valer-se do aumento de vagas em hospitais como pura estratégia para reduzir indicadores e manter portas abertas.

Na Nova Zelândia, país exemplo no controle da infeção, quatro novos casos suspeitos nesta semana bastaram para mais um lockdown. Por aqui, em nenhum momento o confinamento obrigatório foi adotado. E no pior período do contágio, com mais de cem mil mortes, donos de shoppings dizem que “a população estava com saudade das lojas abertas”, o futebol volta com tudo e se fala no retorno das aulas.

Não tem importância se alguns milhares morrerem, as manchetes da TV agora só falam em empregos perdidos.... Morrer é do jogo, qualquer coisa é só fazer um minuto de silêncio antes de a bola rolar em cada partida.

Com “todos os devidos cuidados”, é claro!

A Imprensa não aguentou, os governadores não aguentaram e cidades como Viamão nem sequer fizeram força para manter seu povo em casa. Enquanto isso, os negacionistas aplaudem comprimidos de placebo goela abaixo e ozônio por via retal.

Nem dá para dizer que as máscaras caíram. Para muitos, elas nunca passaram do queixo.

Nesta quarta-feira de marca triste e dolorida, confesso o desânimo ao ver da falta de consciência da população. Dói ver tanta gente passeando, festejando, comprando, contaminando aos seus e aos que sequer conhecem. São três meses cobrando responsabilidade dos gestores, mostrando riscos, números, falta de bom senso e até de ética.

Há 93 dias, aponto a falta de transparência na divulgação das informações das mortes, reviso estatísticas e exponho a subnotificação de casos que é fruto de uma inconsequente falta de testagem. É angustiante ver que mais vidas se foram e muitas outras ainda irão enquanto tento gritar para uma multidão que escolheu ser surda.

Sinto-me sem voz.

Listar nomes, mostrar rostos dos que se foram e expor as dores dos que ficaram não é morbidez jornalística, tampouco é espalhar pânico como bradam os covidiotas de plantão. É uma cara tentativa de fazer os que ignoram os riscos (por desaviso ou convicção) entenderem que não adianta seguir protocolos de faz de conta. É mostrar que o vírus é real, que o querer é diferente de poder. É o recurso extremo para de mostrar que alguém bem perto pode estar chorando... talvez o último alerta que imagino ao meu alcance, antes de a COVID-19 entrar na sua casa.

Viamão, 12 de agosto de 2020 – Em memória das 101 vítimas do coronavírus oficialmente notificadas pelos órgãos de controle sanitários no município.

 

Números de uma guerra:

 

Brasil: 

- 3.164.785 confirmados (+ 55.155 nas últimas 24 horas)

- 104.201 mortes (+1.175 nas últimas 24 horas)

- 2.309.477 recuperados

- 751.107 em acompanhamento

 

Fonte: Ministério da Saúde 

 

Rio Grande do Sul:

- 92.560 confirmados (+2.789 em 477 municípios - 96% de 497 municípios) 

- 2.584 mortes (+ 44 nas últimas 24 horas)

- 9.404 hospitalizados

- 1.913 pacientes em leitos de UTI - de 2.466 disponíveis (77,6% de ocupação)

-  81.665 recuperados 

 - 8.311 em acompanhamento

 

Fonte: secretaria da Saúde do RS

 

Viamão:

- 759 casos

- 101 vidas perdidas  (4 nas últimas 24 horas)

- 223 recuperados

- 435 em acompanhamento

-365 suspeitos

 

Fonte: secretaria da Saúde de Viamão

 

Coeficientes de contágio:

 

Brasil:
1.506,0/100 mil habitantes

Rio Grande do Sul:
813,6/100 mil habitantes

Viamão: 
297,3/100 mil habitantes

 

Fontes: 

https://covid.saude.gov.br/

http://ti.saude.rs.gov.br/covid19/

https://www.viamao.rs.gov.br/coronavirus

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