Terça-feira, 22 de SETEMBRO de 2020

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Claudio Brasil

Campanha ’Fique em casa para que eu também possa sair’

Publicada em 18/05/2020 às 00h| Atualizada em 10/07/2020 às 17h01

"Fique em casa para que eu também possa sair". Esse deveria ser o lema da campanha sobre a quarentena. Ontem foi mais um domingo com a orla do Guaíba lotada. Os índices de aderência à quarentena caem cada vez mais em todo país. As pessoas precisam ter a consciência de que todos precisam ter direito a dar uma caminhada, mas não ao mesmo tempo.

Aqueles que saíram nesse fim de semana, fiquem em casa durante o próximo, em respeito aos seus compatriotas que não estão saindo. Esse é o espírito que deveria nos nortear o comportamento coletivo de população em tempos tão difíceis. Será que chegaremos a entender o ponto o vista? Não parece ser o comportamento natural do brasileiro. Já que não vem dos governantes uma ação direta e compreensível, caberia aos cidadãos cuidarem-se um dos outros em nome de todos, sejam de direita ou de esquerda. Assim superaremos a crise causada pelo COVID-19, com união de esforços.  

Por isso, embora possa parecer um tanto assustador não me surpreende o fato de estarmos sem ministro da Saúde em plena pandemia da Covid-19, mesmo ultrapassando a marca das 16 mil mortes confirmadas. Nem me apavora a condição de quarto lugar no ranking relativo ao número de mortos. Durante toda a campanha eleitoral, o então candidato Jair Bolsonaro deixou claro que era um homem temente a Deus. "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos", foi o lema adotado durante o pleito. Lema apoiado por cerca de 57 milhões de eleitores.

 Sob esse ponto de vista, o que faria o presidente deixar de acreditar que a pandemia realmente não passasse de uma "gripezinha", desde que "ser supremo" estivesse ao lado dele, como ele imagina? Ele avisou. Todos ouviram. Não podemos nos surpreender que agora ele coloque sua fé diante da ciência. A tendência estava presente em suas palavras, em suas aparições na TV e nos debates em que compareceu. Estava nas palavras de seus apoiadores. A cada entrevista a frase era repetida: "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos". Pois agora, com a segunda troca no Ministério da Saúde em menos de um mês, estamos definitivamente nas mãos de Deus.

Após o pedido de demissão de Nelson Teich que "entrou mudo e saiu chocado" depois de visitar cidades do estado do Amazonas, onde sistema de saúde já entrou em colapso, segue a situação de crise política. Está claro que Teich, diante da realidade dos fatos, percebeu a impossibilidade de tratar o problema objetivamente, de forma médica, e "largou fora". Principalmente porque estava certo de que não haveria diálogo com o presidente. Em sua despedida ele ressaltou o aspecto tripartite dos SUS, indicando que o caminho do meio para combater a pandemia passa por um diálogo com os governadores e prefeitos, conhecedores das realidades locais, assim como com os líderes de comunidades.

Entretanto canal de mão-dupla entre o Palácio do Planalto e os governos estaduais ainda não se concretizou, o que só aumenta a incerteza e o medo dos brasileiros em frente à ameaça invisível chamada Coronavírus. Seguimos sem um plano concreto de combate à pandemia no que diz respeito ao Ministério da Saúde. Seguimos sem realizar testes suficientes.

Não esqueçamos que dois médicos saíram da pasta em menos de 30 dias. Médicos escolhidos pelo próprio presidente e se negaram a seguir sua cartilha, pois seriam confrontados em frente às informações científicas e ficariam sem resposta, mudos como Teich.

Quem assume a pasta interinamente é o general Pazuello, que já admitiu em entrevistas ser um "leigo" em questões médicas. Será ele o homem a determinar o novo protocolo a respeito da utilização da cloroquina em pacientes, mesmo depois das ressalvas do Mandetta e Teich? É o que posso imaginar nesse momento de descontrole institucional. Pazuello, entretanto, por ser um homem que lida com a logística do Ministério da Saúde, é também o homem que está mais próximo aos governadores. O que pode ser um alento em tempos de cegueira. Uma chance de diálogo.

Até agora quero entender a razão pela qual o presidente simplesmente não coloca a frente da pasta da Saúde um profissional que aceite suas determinações. Como o médico Eliseu Padilha, por exemplo, que já fez parte do corpo ministerial inclusive. Alguém que assine suas determinações sobre a cloroquina. Vamos ver como será essa relação com o próximo ministro. Outro nome que surge com força é o da médica oncologista e imunologista Nise Yamaguche, que também questiona a produtividade da quarentena e defende o uso cloroquina nos estágios iniciais da doença.

 

*As publicações nos espaços de opinião são responsabilidades de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Diário de Viamão.

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