Sabado, 19 de SETEMBRO de 2020

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Facebook

Opinião

Coluna do Brasil | O julgamento imoral e fanatizado de uma menina de 10 anos

Publicada em 24/08/2020 às 00h| Atualizada em 24/08/2020 às 12h08

Admito que o caso da menina de 10 anos que realizou um aborto na última segunda-feira (17), depois de ser abusada por quatro anos pelo próprio tio, chamou minha atenção. Mesmo que os dados de estupros e abusos de menores no Brasil sejam assombrosos e esses atos sejam corriqueiros, não consegui apenas ouvir e decidi colocar minha opinião sobre o assunto, assim como minhas experiências pessoais.

O Brasil passa por um de seus períodos mais obscuros. Evoluímos muito pouco em relação à miséria que se espraia pelo território nacional. Evoluímos muito pouco em relação à educação em cerca de 40 anos de democracia. Mas, para piorar a situação, estamos atualmente “comendo nas mãos” de pessoas que desaforadamente usam a religião como escudo por seus atos escusos. Essa dominação religiosa caminha com o Brasil desde sua descoberta, mas chegou ao seu ápice durante o governo Bolsonaro. Nunca o nome de “Deus” foi pronunciado tantas vezes em vão.  

No caso da menina que realizou o aborto, esses fatores se combinaram para criar o pior ambiente possível para a retomada da vida da vítima. Natural de Espírito Santo, ela vive em mais uma família miserável. Seu tio, principal suspeito do abuso que gerou a gravidez indesejada, já havia sido preso por tráfico de drogas. Para completar, a mãe está desaparecida. Dependente química de drogas ilícitas, pode estar até morta. E o pai está preso por homicídio.

E a catástrofe pode ser ainda maior. O próprio tio, que já se encontra preso, alegou em vídeo gravado por ele mesmo, antes de ser capturado em Minas Gerais, que os atos criminosos poderiam ser perpetrados também pelo avô e pelo filho do avô. Todos moravam na mesma casa da menina. A partir daí, podemos enxergar melhor o nível de horror passado por esta garota que sequer conseguiu viver sua infância roubada pelos nefastos parentes.

E aí eu pergunto: que direito têm as pessoas das classes média e alta de julgar a garota? Qual “Deus” poderia? Quanto mais fazer toda a balbúrdia ocorrida nas portas do hospital que acolheu a menina e realizou o procedimento, em Pernambuco. Eu mesmo respondo: nenhum direito. Quem eram os arruaceiros? Religiosos de ocasião com suas convicções deformadas. Instigada pela extremista Sara Winter, condenada a pagar R$ 1,3 milhão por publicar dados da vítima na internet, essa horda julga ter o poder sobre a palavra de Deus.

Um grupo de mulheres corajosas realizou um ato de defesa no local. Uma pequena, mas simbolicamente importante oposição para combater os religiosos que tomaram conta daquela área, chegando a forçar a porta, com a total anuência dos policiais que lá estavam e pouco fizeram para conter os fanáticos, mesmo diante dos berros e cantorias bíblicas realizadas em áreas onde se exige estrito silêncio, chamando os envolvidos no procedimento de “assassinos”.

Já está mais do que na hora de a população brasileira e das entidades que buscam defender valores humanos e democráticos se mobilizarem para travar a escalada de poder desses grupos de extremistas antes que cheguem as eleições municipais. É esse nível de organização social que garantirá menores chances de candidatos ligados a associações religiosas se elegerem. Não podemos esquecer que foi justamente a falta dessa organização conjunta que permitiu sua ascensão.

Conheço muitas mulheres que realizaram aborto. Muitas delas com a anuência dos pais. Muitas delas da classe alta e da classe média. Muitas delas crentes a Deus. E em nenhum dos os casos havia problemas de estupro ou abuso. Mas meramente para garantir uma espécie de “virgindade moral”, além da liberdade que seria ameaçada diante das responsabilidades de criar um filho. Em todos os casos, os homens envolvidos na relação concordaram, quando não pressionaram, para a realização dos abortos. Todos maiores de idade. Nenhum foi punido. Não os julguei na época, mas expus minhas críticas.

Então, não posso concordar com o julgamento social impetrado contra a menina de apenas dez anos vivendo em uma situação de extrema vulnerabilidade. Tanto que os abusos se arrastaram por quatro longos anos. Abusos que podem envolver três homens diferentes. Todos do núcleo familiar. Vale lembrar que os casos de abusos de menor não se restringem àquelas famílias em situação de pobreza, ocorrendo muitas vezes em classes sociais mais altas.

O que surge como consolo para a garotinha é que a família aceitou fazer parte do programa de Apoio e Proteção às Vítimas e Familiares de Violência. A menina partiria para um novo endereço tendo de “renascer”, assumindo uma nova identidade. Quanto à sua infância, nenhuma oração será capaz de restaurá-la, não é?

Últimas Claudio Brasil

Opinião
Coluna do Brasil | Saber votar é conquistar a Independência
Opinião
Coluna do Brasil | Luz no túnel: não podemos entregar a partida contra o coronavírus ’nos acréscimos’
Opinião
Coluna do Brasil | O julgamento imoral e fanatizado de uma menina de 10 anos
Opinão
Coluna do Brasil | Violenta explosão em Beirute traz semelhanças com tragédia na Boate Kiss
Opinão
Coluna do Brasil | Triste Dia dos Pais dos 100 mil mortos pelo Coronavírus
Opinão
Coluna do Brasil | Religiosidade em tempos de pandemia
Opinão
Claudio Brasil | Quem nos dera...
Opinião
Rescaldos da Segunda Guerra invadem a ’América Latrina’
Opinião
Claudio Brasil: A paixão pelo modelo norte-americano e a pandemia no Brasil
Opinião
’Stop Bolsonaro’ ecoa pelo mundo que registra 500 mil mortes pelo coronavirus
Opinião
Brasil ultrapassa um milhão de infectados pelo coronavírus e ainda não tem um Ministro da Saúde
Crônica
Claudio Brasil: Carta do Homem-Morcego; Ficção ou realidade?
Opinião | Claudio Brasil
Olavo de Carvalho proibido para menores de 18 anos
Opinião
Claudio Brasil: Alguém viu um ministro da Saúde por aí?
Opinião
Claudio Brasil: Os sete pecados capitais do governo Bolsonaro
Claudio Brasil
Campanha ’Fique em casa para que eu também possa sair’
Crise do coronavírus
Teich pede demissão do Ministério da Saúde; ’Eu aceitei porque acreditei que poderia ajudar’
Claudio Brasil
Em tempos de pandemia, seguro mesmo é paquerar
Coluna do Claudio Brasil
Bolsonaro segue hesitante em mostrar exame para Coronavírus
Brasília em crise
Ato antidemocrático de domingo evidencia cisão entre os três poderes
Paginas: [1] 2 Próxima »

Cristiano Abreu

Redação, sugestão de pautas e redes sociais
51 9 9962 3023
[email protected]

Rafael Martinelli

Editor
[email protected]

Roberto Gomes

Diretor
[email protected]

Ao reproduzir uma de nossas matérias, é ético citar a fonte.
As opiniões assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a posição do jornal.
Desenvolvido por i3Web.
2016 - Todos os direitos reservados.

Rua Osvaldo Aranha, 43 - Sala 5 - 94410-630 - Centro - Viamão - RS