Domingo, 29 de NOVEMBRO de 2020

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Opinião

Coluna do Brasil | As moscas

Publicada em 16/11/2020 às 00h| Atualizada em 16/11/2020 às 12h43

“Acordei de um sono profundo com um grande estrondo. Um som daqueles pouco comuns. Principalmente levando-se em consideração a região onde eu morava, uma pequena cidade de interior. O som foi semelhante a uma grande porta de madeira sendo batida com toda força pelo vento. Por aquelas correntes de ar traiçoeiras que muitas vezes determinam às casas a alcunha de “assombradas”.

Logo depois veio a luminosidade. Foi como se a noite se tornasse dia sobre o sítio onde eu morava. Estou falando de um local longe das redes elétricas e da iluminação pública. Onde as estrelas realmente parecem mais nítidas aos céus de Deus e a Lua pode definitivamente ser chamada de “Sol dos lobos”.  A visão sempre aparecia como uma resposta razoável para a eterna questão, “para onde vamos depois do fim da vida terrena?”. Não posso negar que a cada dia que passava eu gastava mais tempo tentando responder essa questão.

O certo é que o susto foi grande. Abri a janela e pude ver, ao longe, pequenos pontos de luz originados das casas ao redor. Todas distantes umas das outras, o que dava um caráter telúrico àquela situação quase onírica, já que o sono ainda tomava meu corpo enquanto eu tentava desvendar o misterioso estrondo. Não se tratava de um trovão, já que o Céu estava aberto e os astros luminosos. Talvez uma explosão nas redondezas... Pouco provável.

Subitamente um vento frio tomou conta da casa, minha solitária casa sob o luar. Ocupou o espaço de cada fresta entre as madeiras, de cada cômodo, de cada célula. Assobiou entre as árvores e partiu deixando para trás um aroma de passado imperfeito. Sentei à mesa para recobrar os sentidos. Respirei profundamente e decidi partir para conversar com algum vizinho. Segui a pé por cerca de 300 metros quando avistei a família da casa mais próxima à minha. Carregava uma lanterna e sinalizei, mas não fui avistado. Eles apagaram as luzes e voltaram para o conforto de seus quartos. De repente cada luz daquelas que se acenderam começavam lentamente a se apagar. Me senti pleno, como fosse me afastando da nave mãe, estático, sem gravidade. Acho que era efeito do sono. Resolvi voltar para casa.

Sentei à mesa e espantei as moscas que começavam a se aglomerar sobre restos de comida. Aqui na comunidade costumamos dizer que as moscas sempre sabem antes sobre a morte de cada um. Pensei a respeito da crença popular e voltei a dormir. Acordei. A luz do sol brilhava pela janela. Corri ao rádio para ouvir alguma notícia sobre o acontecimento. Tentei sintonizá-lo, mas um estranho ruído parecia deixar a voz do locutor cada vez mais distante. Como se tivessem falando de muito longe.

A explicação vinda da voz espectral dizia respeito a um bólido que fora avistado sobre a cidade. Um meteoro de grande diâmetro havia penetrado o céu em altíssima velocidade. Explodiu  em contato com a atmosfera e, por fim, se espatifou. Havia a possibilidade de que casas pudessem ter sido atingidas. Mas nenhuma confirmação. Desliguei o rádio e decidi mais uma vez procurar pelos vizinhos. Mas quando cheguei à sua casa ninguém estava lá. Sentei  e aguardei . Ninguém apareceu. Tinha a sensação de estar sendo observado. Mas não havia ninguém ali. Apenas os pássaros e suas canções perfeitas. Será que tentariam me explicar o motivo de um objeto vindo do espaço chegar até ali, àquela cidade pacata no fim austral do mundo?

Mais uma vez voltei a minha casa. Refiz o trajeto, pela mata, e descobri como cristais os pedaços de rocha avermelhados que estavam espalhados pelo chão. Sua luminosidade drenava minha força e comecei a sentir frio. Talvez a sensação de ser observado tenha sido causada por essas pedras. Pedaços do meteoro. Estranhas Invasoras de Marte.

Quando dei por mim estava rodeado de moscas. Mais uma vez elas. Belas varejeiras que bebiam meu sangue e colocavam seus ovos sob minha pele pálida. Meus vizinhos me olhavam, mas eu não conseguia ouvir o que falavam. Meus olhos deixaram meu corpo como se pudessem andar por conta própria. Piscaram e num relance avistaram minha casa destruída. O bólido havia escolhido meu lar como local de aterrissagem. Lentamente a luz do dia se tornou em penumbra e fui enfim sepultado. Fechou-se a esquife num estrondo aos meus ouvidos. Como uma velha porta de madeira batendo ao vento...

Quanto tempo havia passado eu não sei. Também não conseguia mais definir sua direção, passado ou futuro. Jamais imaginaria que o objeto de minha morte viria de tão longe. Como em um conto de ficção. Deveria ter percebido, pois as moscas sempre sabem. Sabem sim e talvez já houvessem me avisado há tempos. Afinal, foram elas que, com suas asas graciosas e seu zumbido aconchegante, me levaram ao céu. Por fim, eu estava em meio às estrelas. Desta vez, eternamente.” 

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Cristiano Abreu

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