Quinta-feira, 21 de JANEIRO de 2021

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Opinião

Coluna do Brasil | Close-ups tétricos da sociedade homicida

Publicada em 23/11/2020 às 00h| Atualizada em 23/11/2020 às 13h52

Cada dia deste 2020 amargo traz uma surpresa nova a todos, principalmente no que diz respeito à violência. Pois desta vez o escabroso espetáculo ocorreu em Porto Alegre, nas dependências do supermercado Carrefour localizado na avenida Plínio Brasil Milano. Depois de um desentendimento, dois seguranças acabaram por tirar a vida de um cliente com socos e sufocamento. O homem é João Alberto Silveira Freitas, mais uma vida negra levada pela violência na véspera da comemoração do Dia da Consciência Negra.

O caso ainda está sendo analisado pela Polícia. Seis meses após o assassinato de Geoge Floyd que desencadeou uma onda enorme de protestos nos EUA, algo semelhante ocorre no Brasil. Dois seguranças tiraram a vida de João Beto, como era conhecido, em uma ação que deveria ter como objetivo uma mera imobilização, mas que terminou em muito sangue, e reacendeu a discussão sobre o racismo no Brasil.

Não há como negar que vivemos sim em uma sociedade racista. E mais, uma sociedade homicida. No meu ponto de vista o racismo fica retratado nessa situação quando vemos a desproporcionalidade da reação dos seguranças. Sempre haverá a pergunta, “será que bateriam tanto no homem se ele fosse branco?”. E eu mesmo respondo: NÃO bateriam.

A maneira vil como as vidas negras sempre foram tratadas no Brasil, desde a escravidão, pode levar sim a ações criminosas. O laudo inicial da perícia aponta a asfixia como possível causa da morte, já que um dos seguranças permaneceu durante quase cinco minutos sobre as costas da vítima, depois do espancamento. Situação semelhante à de George Floyd que teve seu pescoço pressionado por cerca de 8 minutos. Então, seria esse o procedimento diante de cidadãos brancos? Será que não havia uma maneira mais amena de contornar a situação? Com certeza havia, mas o fato de bater e matar um negro não causou desconforto nos seguranças.

Nós estamos acostumados a ver cenas assim, como eu disse, desde a escravidão. Uma mulher, funcionária da rede de supermercados, se dá ao luxo de filmar toda a ação criminosa, sem expressar qualquer empatia e sem tentar acabar com o tumulto. Como se estivesse captando imagens para seu currículo pessoal e para os currículos dos matadores. Mais um sinal claro de racismo, pois imaginem quão pouco aquela vida valia para ela, que registrou últimos tormentos de Beto com close-ups tétricos.

As imagens mostram que Beto já se dirigia para a saída do estabelecimento, quando é seguido pelos algozes. Ao chegar ao estacionamento, Beto desfere um soco em um dos seguranças, o que desencadeia a ira descontrolada. Sua mulher chega e tenta ajudar o marido, mas é impedida pelos próprios assassinos. Quando os socorristas chegaram, Beto já estava morto, sem ar.

Notem quantas chances houve para que a situação fosse resolvida. Mas, ao que parece a mim, os destreinados seguranças não levaram essas opções em conta. Preferiram uma abordagem truculenta diante de um cidadão negro. Quantas vezes já vimos a mesma situação? As imagens mostram que a vítima já estava no chão, enquanto os acusados seguiam com as agressões sem necessidade. Como se estivessem tratando com um “escravo fujão” que merecia ir para o tronco. Então há sim o componente claro de racismo na ação.

Vivemos diante de uma sociedade violenta e homicida. Basta ver o resultado das urnas para perceber que a violência gerada pelos líderes eleitos se espalha, resultando em cidadãos “frutos” de um sistema assassino. Esses “frutos” não têm a capacidade de discernir mais, pois aqueles que são seus ídolos alimentam os sentimentos mais vis com ações práticas. Corrupção, racismo e a perda de vidas inocentes são fatos corriqueiros para quem defende torturadores e racistas. E espancar um negro até a morte está dentro desses limites morais distorcidos.

Infelizmente o sangue que jorrou do Beto sujou a roupa de todos nós. Quanto ao inquérito, deve ser encerrado até o final da semana. Uma verdadeira tragédia. Mesmo depois de um fato tão importante, ainda temo que as eleições municipais sejam vencidas pelo candidato apoiado justamente por aquela parcela de políticos que tem como objetivo manter essa mentalidade racista viva e a sociedade homicida a todo vapor. Em declaração após o incidente, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, e o presidente Bolsonaro disseram que não há racismo no Brasil. Como suportar tanta hipocrisia...

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Cristiano Abreu

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