Segunda, 21 de SETEMBRO de 2020

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Tragédia

Miguel Otávio Santana da Silva em seu aniversário

A morte do menino Miguel; a Casa Grande só troca de sinhô e sinhá

Publicada em 05/06/2020 às 00h| Atualizada em 08/06/2020 às 17h52

É a cara desse Brasil o trágico homicídio – sim, homicídio, porque jornalismo é dar nome às coisas – do menino Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, que caiu do 9º andar de um edifício de luxo no Recife após a mãe descer para passear com o cachorro dos patrões e deixar o menino aos cuidados da patroa.

Um menino negro, um Silva, enviado para a morte pela loira de olhos verdes Sari Corte Real, mulher do prefeito de Tamandaré Sérgio Hacker que, apressada para voltar a ter as unhas feitas a domicílio pela manicure, aperta botões de andar e deixa a criança sozinha no elevador. 

Mirtes Renata Souza nem poderia ser convocada pela patroa para trabalhar, já que na capital pernambucana a atividade de diarista não é considerada atividade essencial. De ônibus, da periferia para o bairro de luxo, a mãe precisava levar o filho para o emprego, porque escolas estão fechadas.

A diarista, o menino e a mãe, grupo de risco, já tinham contraído a COVID-19 do prefeito e da primeira-dama. Tiveram sintomas leves, diferente de Cleonice Gonçalves, a diarista – também negra – e idosa (63 anos) registrada como a primeira morte pelo novo coronavírus no Brasil, e contraída da patroa do Alto Leblon, o metro quadrado mais valorizado do país, que tinha voltado das férias na Itália.

Quer mais um pouco desse chorume que corre pelas veias desse país? O Ministério Público de Pernambuco abriu inquérito nesta sexta para investigar a nomeação da diarista para CC na Prefeitura, no valor de R$ 1.093,62 – o que Mirtes alega não saber.

Quando no simbólico 13 de maio, Dia da Abolição da Escravatura, escrevi no Seguinte: o artigo É essencial limpar a Casa Grande; abolida escravatura, pretas e pobres ao trabalho!, sobre o experimento do distanciamento ‘descontrolado’ do Governo do RS liberar a atividade de diarista, experimentei a impopularidade de todos os dias no Grande Tribunal das Redes Sociais – vivemos uma época na qual a falta de condições de interpretar um texto involuiu para incapacidade de entender uma manchete, o máximo que tantos leem.

Reproduzo trechos, por atuais, como amanhã também serão, e fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos e confirmam a herança escravagista.

Ao fim, concluo.

 

É ou não é o país do ‘quartinho da empregada’, de patriotas de uma elite individualista, insensível, inculta e infame, onde em suas bolhas, em home office frente a planilhas de apps, tantos pensam, ou verbalizam, como Guilherme Benchimol, presidente da XP Investimentos, que “o pico da COVID-19 já passou nas classes altas”, não sem alertar, como o bom branco que tem amigo negro, que “o desafio é que o Brasil tem muita favela”?!?

É ou não é o país do ‘quartinho da empregada’, onde feio é empregada pobre e preta ir para a Disney, e não se contaminar com a doença trazida do Exterior pelos ricos. Onde o difícil é a patroa cuidar da casa ou deixar os filhos sozinhos em aulas online, e não a empregada pobre e preta, sem creche e sem escola, deixar os filhos sob os cuidados de outras crianças, ou de pais idosos.

Acham que exagero ao personificar a doméstica pobre e preta? A reportagem O que faz o Brasil ter a maior população de domésticas do mundo, traz dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que mostram que se organizasse um encontro de todos os seus trabalhadores domésticos, o Brasil reuniria uma população maior que a da Dinamarca, composta majoritariamente por mulheres negras.

O país emprega cerca de 7 milhões de pessoas no setor, o maior grupo no mundo. São três empregados para cada grupo de 100 habitantes e a liderança brasileira nesse ranking só é contestada pela informalidade e falta de dados confiáveis de outros países.

Com um perfil predominante feminino, afrodescendente e de baixa escolaridade, o trabalho doméstico é alimentado pela desigualdade e pela dinâmica social criada principalmente após a abolição da escravatura no Brasil, afirmam especialistas.

Um estudo feito em parceria entre o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao Ministério do Planejamento, e a ONU Mulheres, braço das Nações Unidas que promove a igualdade entre os sexos, compilou dados históricos do setor de 1995 a 2015 e construiu um retrato evolutivo das noções de raça e gênero associadas ao trabalho doméstico.

Os resultados demonstram a predominância das mulheres negras ao longo do tempo.

Em 1995, havia 5,3 milhões de trabalhadores domésticos no Brasil. Desses, 4,7 milhões eram mulheres, sendo 2,6 milhões de negras e pardas e 2,1 milhões de brancas. A escolaridade média das brancas era de 4,2 anos de estudo, enquanto que das afrodescendentes era de 3,8 anos.

Vinte anos depois, em 2015, a população geral desses profissionais cresceu, chegando a 6,2 milhões, sendo 5,7 milhões de mulheres. Dessas, 3,7 milhões eram negras e pardas e 2 milhões eram brancas. O nível escolar das brancas evoluiu para 6,9 anos de estudo, enquanto que, no caso das afrodescendentes, chegou a 6,6 anos.

– Ainda hoje o trabalho doméstico é uma das principais ocupações entre as mulheres, que são a maioria no setor em todo o mundo, cerca de 80%. No Brasil, permanece sendo a principal fonte de emprego entre as mulheres – analisou para BBC Claire Hobden, especialista em Trabalhadores Vulneráveis da OIT.

Dados de 2019 mostram que o trabalho doméstico respondeu por 6,8% dos empregos no país e por 14,6% dos empregos formais das mulheres. No começo da década, esse tipo de serviço abarcava um quarto das trabalhadoras assalariadas.

– O cenário do trabalho doméstico no Brasil atual é herança do período escravagista – corroborou o professor e pesquisador americano David Evan Harris.

Fato é que nossa abolição da escravatura é tão fake quanto as intenções da Princesa Isabel. Por aqui, ‘permitamos’ que pretas e pobres sigam, em ônibus lotados, para o Porongos do dia a dia.

Ao fim, é essencial limpar a Casa Grande.

 

Ao fim, não canso de repetir que o conceito do brasileiro cordato, de “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, é, no mínimo, uma meia verdade, e a metade mais próxima da mentira.

A dona Mirtes perdeu o filho da mesma forma que as negras que no tempo infame da escravatura cuidavam dos filhos das brancas tinham suas crianças tiradas delas e vendidas como escravos.

A Casa Grande e Senzala só muda de sinhô e sinhá.

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Cristiano Abreu

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