Segunda, 21 de SETEMBRO de 2020

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Opinão

Erika Goelzer | É preciso sonhar

Publicada em 12/08/2020 às 00h| Atualizada em 12/08/2020 às 16h02

Há um consenso geral que a pandemia tem provocado um sonhar importante. Não apenas em seu conteúdo, mas também na quantidade de sonhos que temos percebido e lembrado diariamente. Meus pacientes, mas também familiares e amigos, tem relatado um sonhar mais constante e intrigante.
    Desde que “o mundo é mundo” buscamos explicações para a atividade onírica que nos visita todas as noites. As explicações já foram muitas e, por muito tempo, interpretamos os sonhos como uma forma de presságio. Sonhar foi visto por muito tempo como uma mensagem recebida do além para antecipar situações que enfrentaríamos.

Sobre o sonhar como presságio, eu pouco sei dizer. Nunca acreditei muito nos “manuais” que insistiam em relacionar panelas a casamento e cobra com traição. Confesso que na infância, após sonhar com a dentadura do meu avô, passei dias com medo de perder algum familiar, já que havia lido em algum lugar que sonhar com dentes era “morte próxima”. Precisei me desvincular dessa crença para continuar minha infância e escapar do pânico que aquele sonho me causara.

Hoje, como psicóloga, entendo os sonhos como uma produção inconsciente particular. Aquilo que meu sonho me traz, diz respeito a mim e só a mim. O sonho é de quem sonha. Mais do que uma produção repleta de “restos diurnos”, sonhar traz uma verdade cifrada sobre o sonhador. Nos revelamos em enigma pelo sonhar e aquilo que estava produzindo angústia, escondido no fundo de nós mesmos, finalmente encontra uma forma segura de escoar.

Sonhar é reencontrar o já vivido em uma tentativa de dar conta de fantasias e desejos, mas também de elaborar o que nos foi traumático. A escuta do sonho manifesto cria uma trilha de migalhas daquilo que pode ser visto até o inconsciente e todo seu conteúdo controverso e, muitas vezes, hostil.

Uma curiosidade é que o sonho também reflete nossa capacidade pulsional de vida ou morte. Sabemos que as pessoas em depressão acabam por ter sonhos tão esvaziados quanto os sentimentos diários que lhe atormentam. A incapacidade de lidar com o trágico e com a vida cotidiana fica explícita na incapacidade de lidar com o a dor e o traumático ao sonhar.

“Enigma” talvez seja a palavra chave para definir um sonho. Raríssimos sonhos são literais o suficiente para serem entendidos já ao acordar. O que ocorre, normalmente, é a regra de “nada ser o que parece”. Justamente por isso a análise pessoal e o tratamento psicológico costumam se interessar tanto pelo sonhar, pois não deixa de ser a comunicação efetiva (e disfarçada) da questão do paciente. A máxima cartesiana “penso, logo existo” poderia facilmente ser transformada em uma máxima psicanalítica: “sonho, logo existo”.

Outra curiosidade a respeito do sonhar é que nem sempre lembramos do que sonhamos, mas dificilmente não sonhamos. Uma noite dormida sem que a atividade onírica aconteça faz com que o despertar seja tão cansativo quanto o não dormir. É como se ao sonhar e elaborar um pouco do que nos aflige também acontecesse uma espécie de “reset” na máquina cerebral e em nosso aparelho psíquico. Sonhar é essencial do ponto de vista psíquico e orgânico.

Não estamos sonhando mais, estamos lembrando mais dos nossos sonhos. Estamos precisando que o sonhar de conta diariamente do dilema que o viver tem nos imposto. Não sabemos exatamente para onde estamos caminhando e que tamanho terá o rombo econômico e pessoal desta pandemia. O número de óbitos fica martelando no noticiário e em nosso consciente e alternamos entre sucumbir ao desespero e tentar sobreviver.

A pandemia do novo Coronavírus já nos tirou muita coisa, mas não nos tirou nossa capacidade de sonhar. Todas as noites temos a possibilidade real de nos reorganizarmos psiquicamente para enfrentar o novo amanhã. Muita força e bons sonhos para você!

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Cristiano Abreu

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