Terça-feira, 22 de SETEMBRO de 2020

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Opinião

Erika Goelzer | A função paterna

Publicada em 09/09/2020 às 00h| Atualizada em 09/09/2020 às 18h29

Hoje meu pai completaria 71 anos. Há dez anos ele já não está mais conosco. Faleceu cedo, cheio de possibilidades e sonhos. Foram mais de 10 anos de adoecimento que limitaram, por vezes, seu corpo, mas nunca sua alma. Teve a sorte de encontrar pelo caminho médicos maravilhosos que foram incansáveis em ajuda-lo. Meu pai encantava as pessoas que o conheciam, tinha uma força interna enorme, mas como todos, escondia medos e aflições.

No caminho de sermos quem somos, todos fomos marcados por uma figura paterna (ou por sua ausência). Presença e ausência são dois lados da mesma moeda e nos marcam de formas diversas. O traumático se dá pela falta ou excesso. Desamparo e superproteção são amigos que andam de mãos dadas. Falarei disso em outra ocasião.

Hoje, embalada pela memória do meu pai, irei falar justamente desta figura tão emblemática e que, embora tenha mudado seus contornos com a modernidade, não deixou de ser importante. Para isso, vou esclarecer primeiramente o que é um Pai para a Psicanálise e sua importância na estruturação psíquica.

Em psicanálise falamos de “função materna” e “função paterna” que não necessariamente precisam ser exercidas por pessoas do sexo feminino ou masculino e que tão pouco precisam estar ligadas aos genitores biológicos. A função materna diz respeito aquilo que chamamos de maternagem, ou seja, aos primeiros cuidados de um bebê. A pessoa que exerce a função materna é aquela que acolhe o recém-nascido, que lhe retira da situação de desamparo a qual veio ao mundo, que interpreta seus choros, que lhe oferece palavras para ir nomeando o mundo. A função materna dá contornos ao corpo do bebê e ao mundo que o rodeia e transforma o mundo em mais ou menos hostil. É graças a esse primeiro acolhimento e cuidado que o bebê humano sobrevive.


A função paterna é exercida por uma instância terceira, que marca a criança com um outro tipo de proteção: a proteção simbólica. É o pai que introduz um “corte” na relação dual e intensa entre mãe e filho. É graças a função paterna que nos tornamos seres independentes e separados daquele primeiro objeto de amor, a mãe.

Fica claro o quanto para que a função paterna se estabeleça não é necessário que o pai esteja vivo, em carne e osso, presente na realidade e que, tampouco que seja um homem. O que importa é a posição de independência protegida que a função paterna proporciona. É o pai que tira a criança do lugar de objeto materno e o coloca em um lugar de sujeito desejante. Esse modo de ver as coisas não diminui em nada a função dos cuidadores, sendo estes genitores biológicos ou não. Tampouco torna um dos personagens do par parental mais importante do que o outro, pelo contrário, esboça o quanto são milagrosas a concepção e a constituição psíquica humana que funciona em compassos como uma sinfonia. 

Toda essa importância, muitas vezes, está além das nossas lembranças. Não são falas de um teatro ensaiado e vão se construindo no dia a dia. Os pais e mães não exercem suas funções pensando tecnicamente sobre seu fazer, pelo contrário, são direcionados pela pulsão e pelo afeto. Meu pai não foi perfeito, nenhum é. Mas eu não desejaria ter tido outro na minha vida e sei que sou abençoada por isso. A imortalidade acontece nas marcas que deixamos no outro depois da nossa partida e pensando assim, mesmo depois de 10 anos, meu pai continua vivo. Saudades do meu pai!

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Cristiano Abreu

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