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Opinião

Erika Goelzer | Envelhecer é uma arte

Publicada em 07/10/2020 às 00h| Atualizada em 07/10/2020 às 17h37

Dizem que envelhecer é uma arte. Talvez seja mesmo, pois, assim como a arte, o envelhecer é um processo completamente subjetivo e singular. Começamos a envelhecer no momento da concepção e todos os dias desde então são direcionados ao processo de desenvolvimento. Passamos boa parte da vida querendo crescer, e quando de fato isso realmente acontece, o desejo se transforma em desacelerar o tempo. De qualquer forma, nunca estamos completos, há sempre algo que falta. 

Nossa identidade se dá a partir do processo de constituição do Eu, muito estudado pela psicanálise. O Eu não é um corpo, mas constantemente nos confundimos entre os dois conceitos. O corpo é uma das nossas formas de apresentação ao mundo e é muito comum sermos julgados por ele, já que vivemos em uma sociedade que valoriza a potência e a estética magra e jovem.

Demoramos muito tempo para entender que nosso valor enquanto sujeitos vai muito além da imagem corporal que temos. Algumas pessoas simplesmente não conseguem ser magras, algumas pessoas simplesmente não conseguem dar conta dos padrões impostos e em nada isso modifica sua índole, caráter e valores. Quando finalmente a maturidade começa a chegar e conquistamos uma relativa segurança psíquica é justamente o corpo que passa a falhar. Com o passar do tempo, o corpo se faz cada vez mais presente na vida cotidiana e psíquica do sujeito. Aquele corpo familiar que nos pertencia passa a ter outro registro, tornando-se ameaçador e estranho.

Outro dia, vi uma charge de internet que mostrava corpos idosos sendo usados como marionetes por pessoas mais jovem em alusão que somente o corpo envelhece e a alma ou psiquismo se mantém jovem: uma verdade incontestável. Algumas pesquisas afirmam que os gostos que temos no início da adolescência são os mais duradouros. Podemos agregar novas afeições, mas se você escutava, por exemplo, Chiclete com Banana aos 14 anos, sempre sentirá um certo deleite e familiaridade com a música da banda. O envelhecimento traz uma falta de reconhecimento como imagem e não como sujeito.

Infelizmente o envelhecer tem uma conotação negativa na sociedade ocidental. No ocidente, nossos adultos e idosos não são vistos como fontes de sabedoria a ser absorvida, pelo contrário. E como se identificar como uma imagem negativa que limita a possibilidade de existência no mundo?

O envelhecimento reabre uma das feridas narcísicas: a castração. Castração para a psicanálise nada tem a ver com a atividade real igualmente nomeada, e remete a experiência particular de lidar com as diferenças e com as limitações. Nos deparamos com ela, pela primeira vez, na infância precoce, quando descobrimos a diferença anatômica. A criança desde sempre aprende a diferenciar meninos e meninas, mas só atenta para as consequências desta diferença bem mais tarde.

Menina e menino são confrontados invariavelmente com a presença ou ausência de um pênis e a consequência desta descoberta é simbólica. A “castração” ou ausência de um pênis mostra a todos os sujeitos que pessoas são diferentes e que a existência é marcada por um ter/não ter, ausência/presença e que não escaparemos desta lógica. “Não se pode ter tudo! Não se pode fazer tudo que se quer!”: essas são as lições mais importantes do Édipo, com suas descobertas.

Neste ponto, retomo uma frase do primeiro parágrafo: “De qualquer forma, nunca estamos completos, há sempre algo que falta.” E no envelhecimento é o corpo que começa a faltar. Ouvia frequentemente de uma paciente de 97 anos que em sua cabeça ela conseguiria levantar, preparar o almoço, cuidar dos netos, lavar a roupa, alimentar os animais e cuidar das flores, mas que ao tentar ficar em pé, seu corpo simplesmente se negava a se equilibrar sem a ajuda de um andador. A “castração” do envelhecimento vem com as restrições que nosso próprio corpo nos impõe.

Meu pai, já falecido, sempre dizia: “pior do que envelhecer é não envelhecer”. Aos 60 anos, já sabendo que não viveria muito tempo, percebeu que não se importaria de ter um corpo limitado. Envelhecer é uma arte e um presente, dizia aqueles que não tiveram a chance de aproveitá-la.

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Cristiano Abreu

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