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Opinião

Erika Goelzer | Relembrar é viver

Publicada em 29/10/2020 às 00h| Atualizada em 16/11/2020 às 12h31

Relembrar é viver, ouvi uma vez. Mas será que podemos confiar na nossa memória? Será que só lembramos de uma situação exatamente como ela aconteceu ou nossa memória memória pode nos enganar? Uma das minhas lembranças de infância mais nítida na verdade não aconteceu. É um paradoxo interessante porque minha certeza dessa lembrança é tão forte quanto a evidência de que ela não aconteceu.

Lembro nitidamente do inverno de 1984 quando nevou em Viamão (Sim! Já nevou em Viamão!). Lembro de estar na janela da cozinha da casa da minha avó paterna. Lembro dela junto de mim e de assistirmos juntas a neve cair pela janela no corredor lateral do quintal. Essa lembrança seria perfeita a não ser pelo fato de minha avó ter falecido em 1983. Eu ter assistido a neve junto a ela é completamente impossível.

Para a psicanálise, o aparelho psíquico tem seu pressuposto central no papel organizador da memória e Freud desde o início de sua obra teve um interesse especial pelas memórias infantis. Em um dos seus textos, Freud levanta suspeitas a respeito da autenticidade de nossas primeiras lembranças da infância que, para ele, podem ter sofrido a influencia de uma diversidade de forças psíquicas posteriores.

A história de um sujeito não  é uma linha reta. É na verdade traçada de forma que as tramas do que foi vivido se  entrecruzam e cada ponto vai ressignificando o anterior. O passado está sempre no presente e vai moldar o futuro de alguma forma não estática. Realidade psíquica e realidade material não coincidem exatamente. Há acontecimentos da infância  que se inscrevem e costuram marcas psíquicas que ficam suspensas esperando o acontecimento posterior que lhe conferirá significado.

Esse outro tempo que não respeita a cronologia e se constrói em paralelo à realidade material. Na maioria das vezes não vemos sequer a nós mesmos da mesma forma que os outros nos veem. Nossa percepção está completamente subjugada a esta trama invisível que opera em nosso inconsciente e nossas lembranças também são alteradas por ela. Nada do que vemos e ouvimos coincide com o Real e absorvemos cada situação através do “óculos pessoal” inconsciente. E se nossa percepção não é confiável por que nossa memória haveria de ser?

Não sei exatamente porque tenho essa memória com a minha avó. Minha hipótese mais plausível é que eu estava tão maravilhada com a neve que foi muito fácil “colar” a falta que minha avó me fazia e tornar a lembrança perfeita. Ou talvez meu inconsciente tenha me dado esse presente só depois, em sonhos. Relembrar é viver inclusive o que não foi vivido.

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Cristiano Abreu

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