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Opinião

Sankofa Viamão | A máscara de Flandres 2020

Publicada em 01/08/2020 às 00h| Atualizada em 07/08/2020 às 12h11

A máscara de Flandres 2020

 

Nos últimos dias tenho notado quando vou ao mercado fazer as compras, que o uso da máscara tem sido mais um motivo para sermos olhados de modo diferente. Durante o percurso, vejo algumas pessoas me olharem com receio ao atravessar a rua, com medo; nada de novo para nós, negros. Até algumas pessoas conhecidas usam da desculpa de que não nos reconheceram, “Ah! Não te reconheci”.

Sabemos que o uso de máscara dificulta um pouco a identificação. Mas não é de hoje que somos confundidos com assaltantes, isto sempre aconteceu, como no uso de toucas, de óculos e de chapéus, muito antes do uso obrigatório da máscara. Outro dia chamei um carro no aplicativo. Estava na casa da minha namorada em frente ao portão e coloquei a máscara como recomenda a Organização mundial da saúde, ao embarcar no veículo, o motorista reclamou do modo que eu estava aguardando a corrida, falou bem alto: “Dá próxima vez, não me espera no meio da rua, acenando com o telefone, que eu vou passar reto, espera dentro do pátio”. Me senti mal! Só não cancelei a corrida, porque já havia um tempo que estava esperando devido a cancelamentos anteriores.

No passado, já encontrávamos uma relação difícil com o uso da máscara. Você já ouviu falar na “Máscara de Flandres”? A mesma foi usada como uma forma de prevenir que os escravos cometessem furtos de alimentos, uso de bebidas alcoólicas e quando mineravam diamantes, evitando desvio do mesmo. As máscaras eram feitas com folhas de flandres (laminado ao frio) o qual originou o nome. No Brasil, foi muito utilizada durante o período de escravidão, colocada nos escravos que trabalhavam nas colheitas de alimentos, evitando o acesso à boca. Assim, quem a utilizava não podia ingerir nem um tipo de alimento, não causando prejuízos econômicos aos seus donos.

As máscaras desenvolviam outro papel: o de evitar suicídios; porque quando o escravo comia terras, provocava uma infecção gerada pelo verme necator americanus que o deixava incapacitado de trabalhar. Estas máscaras eram bastantes diversas, ajudavam na captura dos escravos que estavam fugindo.

Sendo assim, os que eram capturados, não conseguiam se matar envenenados ou sufocados por engolir uma grande quantidade de terra. A escrava Anastácia na maioria das vezes, aparece usando uma dessas máscaras, em sua representação.

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Cristiano Abreu

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