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Opinião

Sankofa Viamão | O Massacre de Porongos na Revolução Farroupilha

Publicada em 18/09/2020 às 00h| Atualizada em 18/09/2020 às 12h09

Na semana passada, esta coluna abordou aspectos gerais da escravidão no estado do Rio Grande do Sul e sua relação econômica com a escravidão no restante do Brasil. Um dos aspectos importantes foi o fato de negros não serem tratados com a possibilidade de obter cidadania, aspectos que foram brevemente abordados sobre a Constituição da República Rio-Grandense, que citava a cidadania de homens livres (o que dava a possibilidade de haver homens não-livres) e também a questão do voto censitário (que exigia determinada renda para votar ou ser candidato). Um dos mitos amplamente divulgados foi a promessa de liberdade aos escravos que lutavam na batalha contra o Império Brasileiro, no Cerro de Porongos (atual município de Pinheiro Machado, no Rio Grande do Sul), o que apresenta algumas contradições que serão analisadas. 

O primeiro aspecto é o econômico: o Rio Grande do Sul era uma província de estancieiros, e esses viam o escravo como um patrimônio ou um instrumento de trabalho da estância. Obviamente, como boa parte desses estancieiros estavam envolvidos diretamente na política da província, eles tinham força política para cobrar indenização caso perdessem escravos na alforria prometida pelos Farroupilhas. Outro ponto fundamental é que os escravos passaram a aprender a utilizar armas. Era comum no país ocorrer rebeliões organizadas por escravos que nem tinham acesso a armas; com eles aprendendo a utilizá-las, o temor dos estancieiros de serem mortos pelos próprios escravos tornar-se-ia muito maior. Ou seja, os estancieiros iriam querer indenização, ao mesmo tempo que temiam o retorno dos Lanceiros Negros, que haviam aprendido a lidar com armas para lutar contra o Império.

Juremir Machado da Silva possui uma análise fundamental que aprofunda essa visão, no seu livro “A História Regional da Infâmia” que eu não poderia deixar de mencionar nesta coluna. Segundo ele, houve uma espécie de acordo entre Farroupilhas e Imperiais. Na época, os estancieiros que eram favoráveis ao Império queriam a devolução dos escravos para suas estâncias, enquanto isso os Farroupilhas temiam o retorno desses escravos, com medo de que eles pegassem em armas contra eles. A solução adotada foi a seguinte: a maioria dos escravos foi levada ao campo de batalha como peões no tabuleiro de xadrez, ou seja, iam na frente para que a maioria fosse realmente morta; já aqueles que não fossem mortos, seriam mandados pelos Farroupilhas para serem escravos no Rio de Janeiro, com o Império comprando esses escravos dos donos que parte deles eram defensores do regime monárquico. Ou seja, a maioria dos escravos foram desarmados e colocados na frente de batalha para que o mínimo de escravos ganhasse o direito à alforria (liberdade). Porém, os que sobreviveram foram comprados pelo governo imperial brasileiro e seguiram como escravos até o fim da vida.

Nesse cenário aparece a figura de David Canabarro, que durante muito tempo foi tratado como herói pela historiografia positivista sul-rio-grandense, que foi construindo o mito da heroicidade da Revolução Farroupilha durante a consolidação do regime republicano, que se estabeleceu com a comemoração do centenário da Revolução Farroupilha em 1935. Assim, segundo relatos, na madrugada do dia 14 de novembro de 1844, os Lanceiros Negros, previamente desarmados por David Canabarro e separados dos soldados brancos, foram atacados pelas tropas imperiais e mortos na região do Cerro de Porongos (ARARIPE, Tristão de Alencar. Guerra civil no Rio Grande Do Sul: memória acompanhada de documentos lida no Instituto Histórico Geográfico do Brasil. Porto Alegre, CORAG, 1986, p.211). Depois disso, os acordos entre Farroupilhas e Imperiais foram se consolidando, com as conversas entre David Canabarro e o Barão de Caxias se intensificando e levando ao desfecho da única revolta regencial que se estendeu até o reinado de Dom Pedro II.

Os Lanceiros Negros foram soldados fundamentais nas tropas Farroupilhas, pois a revolta se estendeu por longos 10 anos, e muitos estancieiros aproveitavam a valentia desses soldados como forma de fazer frente ao Império que já estava mais forte após ter conseguido controlar as demais revoltas regenciais. A promessa de liberdade era inócua em uma província que dependia do trabalho escravo para manutenção da sua economia charqueadora (que visava alimentar os escravos das demais províncias brasileiras). Boa parte desses escravos não lutou pelos ideais Iluministas distorcidos dos estancieiros sul-rio-grandenses, lutaram sonhando com a promessa de liberdade dada a eles antes de irem para os campos de batalha. Os escravos lutaram bravamente por essa alforria e foram traídos e não receberam a tal liberdade prometida.

Dessa maneira fatídica, foi encerrada a participação dos Lanceiros Negros contra as tropas imperiais. A escravidão na província ainda duraria longos 40 anos, com os escravos seguindo sendo como uma mercadoria que era lucrativa no país, que a mantinha apesar das pressões britânicas afundando navios negreiros no Oceano Atlântico. As festividades do 20 de setembro são uma tradição consolidada no estado, mas sempre será importante evitar que os Lanceiros Negros sejam esquecidos, pois é fundamental construirmos um país e um estado que, mesmo com tradições, reconhece erros cometidos no passado. Que venham mais pesquisas históricas sobre os Lanceiros Negros e que essa História seja sempre lembrada.  

 

Ígor Andrade Cardoso é especialista em ensino de História e de Geografia.

 

*As publicações nos espaços de opinião são responsabilidades de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Diário de Viamão.

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