Quinta-feira, 03 de DEZEMBRO de 2020

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Sankofa Viamão

Sankofa Viamão | Por que vidas negras importam

Publicada em 03/10/2020 às 00h| Atualizada em 05/10/2020 às 14h13

A conversa de hoje é para conscientização dos brancos: o objetivo é debater o racismo. Para isso, é fundamental sempre lembrarmos de que não basta não ser racista, é necessário que tenhamos uma consciência antirracista. Ou seja, é preciso que nós possamos refletir todos os dias sobre nossos comportamentos e de o quanto a cultura excludente do país pode influir na nossa visão de mundo.

Nem sempre o racismo vem de um comportamento no qual acreditamos ser maldoso, já que muitas vezes reproduzimos comportamentos errados e não percebemos, e nós fazemos porque vemos as pessoas ao nosso redor comportando-se dessa maneira. Esses comportamentos equivocados podem se manifestar através de questões simples, que vão desde a linguagem até formas sociais: quantos de nós já vimos um negro em um cargo de chefia e não confundimos com pessoas de trabalhos mais simples, ou, no mínimo, sentimos determinado estranhamento por vermos esse indivíduo em uma situação que não é a aquela que estamos acostumados a ver? Quantos de nós ficamos incomodados com o protesto do piloto britânico Lewis Hamilton no pódio da Fórmula 1?

Com o caso lamentável de assassinato do estadunidense George Floyd, tornou-se comum pessoas colocarem nas redes sociais que “vidas negras importam”. Sim, elas importam. Mas nós, brancos, precisamos ir muito além disso. Não adianta colocarmos essa frase impactante como filtros nas redes sociais e, ao mesmo tempo, só aceitarmos negros em empregos que possuem remuneração mais simples e não refletirmos o motivo de eles serem proporcionalmente minoria nas universidades ou nos cargos de chefia das grandes empresas (tanto privadas como também públicas).

A ideia de um pensamento antirracista é de que possamos vê-los ocupando espaço nas universidades não só como alunos, mas também como professores, sendo que é fato que os negros são a minoria dos alunos universitários, e dentre os professores, o número é menor ainda. O negro não deve ser somente o faxineiro ou o jogador de futebol (que é aplaudido pela torcida do seu time e ofendido com frases racistas pela torcida adversária), mas também o médico, o jornalista, o professor, ou mesmo alguém que ocupe determinado cargo de importância no governo ou em determinada empresa.

Desse modo, além de não prejudicar as políticas de inclusão dos negros, é necessário que sejamos defensores delas. O termo “vidas negras importam” precisa estar ligado a uma noção de inclusão e de mudança na situação social do país. O negro não pode ser a pessoa que ocupa o emprego que eu não quero para meus filhos, o negro precisa sonhar também que ele e seus filhos tenham as mesmas chances na vida escolar ou mesmo no mercado de trabalho que os filhos dos brancos vêm tendo. Não há vergonha alguma em alguém ter um emprego simples de remuneração mais baixa, a minha discussão é a de deixar esses trabalhos como quase exclusivos para a maioria da população negra do país.

Muitos brancos se sentem incomodados quando uma grande empresa como o Magazine Luiza reserva vagas para negros em um emprego com menor remuneração, mas nunca esteve preocupado quando as mesmas empresas há anos reservavam cargos mais simples para negros. É uma reflexão: quantos negros têm empregos de remuneração baixa numa grande empresa e quantos têm empregos vistos como de maior status social?

Sendo assim, é muito pouco apenas não ser racista, é necessário que a sociedade faça algo para que haja real igualdade. E só vamos obter o status de discutir “vidas humanas”, como muitos brancos gostam de acrescentar, discutindo políticas de inclusão e olhando os números negativos da população negra.

A conscientização precisa vir de um pressuposto no qual não é normal uma etnia ser escravizada em um país por mais de 300 anos e que não é aceitável essa etnia, anos depois, não esteja majoritariamente inserida nos melhores empregos enquanto lidera as estatísticas de perseguição policial, por exemplo. Se as vidas das pessoas de determinada etnia importam, precisamos discutir o motivo de um grupo social ter mais privilégios do que eles. Não é uma discussão simples entre esquerda e direita, é uma discussão de humanização de um país.

A inclusão do negro seria benéfica para todos, pois permite que famílias negras possam ter acesso às universidades ou que possam disputar com justiça as vagas de emprego com maior valorização. Essa diferenciação é uma questão sociológica e não é uma questão de opinião. Eu opinar que o país não é injusto com negros e indígenas não vai esconder a marginalização institucional que elas sofrem.

A França discute a questão dos imigrantes, assim como a Alemanha discute suas culpas pelo Holocausto de judeus e ciganos. Da mesma maneira, o Brasil deveria discutir amplamente entre os cidadãos os erros com a questão escravista para chegarmos a uma verdadeira sociedade igualitária. A solução não virá a curto prazo, embora possamos fazer algo para, ao menos, começar a reverter esse quadro de desigualdade social e racial.

 

Ígor Andrade Cardoso é especialista em ensino de História e de Geografia.

 

*As publicações nos espaços de opinião são responsabilidades de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Diário de Viamão.

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