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Opinião

Sankofa Viamão | Multietnicidade do continente africano

Publicada em 17/10/2020 às 01h| Atualizada em 23/10/2020 às 11h43

Na semana anterior, falei sobre a importância de trazer assuntos sobre a África para a sala de aula, não deixando para que eles sejam trabalhados apenas no mês de novembro. Sendo assim, hoje vou abordar um dos problemas decorrentes do fato de o continente africano não estar presente em sala de aula: muitas pessoas no Brasil não reconhecem a multietnicidade do continente africano, acreditando que a África seja um país único, formado por apenas uma etnia. Destaco mais uma vez que, como professor, não estou pedindo que as escolas deixem de trabalhar conteúdos referentes à Europa; na verdade, estou ressaltando a necessidade de um espaço semelhante para falar sobre África durante o ano letivo. Devido a essa lacuna sobre a África na pesquisa das universidades e nos currículos abordados nas escolas brasileiras, torna-se fácil o cidadão mais comum acreditar em textos de internet que justificam a escravidão usando como base a falta de conhecimento sobre o assunto.

Primeiramente, todos os cinco continentes habitados do planeta possuem uma diversidade étnica enorme, e costumamos reconhecer de maneira tranquila essa diversidade na Europa. Como as escolas brasileiras abordam bem a História e a Geografia das nações europeias, a maioria de nós sabe que o continente possui uma diversidade étnica considerável. Desse modo, quando se lê sobre batalhas entre britânicos e alemães na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, ninguém sai dizendo que são brancos lutando entre si e que eles são desunidos: a maioria de nós sabe que britânicos e alemães são indivíduos de nações muito diferentes que possuem suas peculiaridades geopolíticas no cenário histórico em questão. Da mesma maneira, como estamos familiarizados a ver a Europa abordada na escola e na mídia e todos sabemos que portugueses e russos, embora brancos e europeus, são indivíduos de cultura e características totalmente diferentes.

Porém, o continente africano é abordado com gigantescas lacunas, tanto nas universidades, como também na mídia e nas escolas. Estamos acostumados a ver referências generalizadas em relação aos países africanos. Pouquíssimas vezes vemos menções ao país que determinado problema ou fato está ocorrendo. Se há um problema de fome e miséria em um país como a Somália, a mídia não se refere diretamente a esse país em específico, e sim ao continente africano, muito embora países como Nigéria e África do Sul naquele momento não estejam passando pelo mesmo problema abordado na reportagem ou no conteúdo da aula de Geografia. Além do mais, vários países africanos são multiétnicos, pois tiveram suas fronteiras estabelecidas durante o domínio das nações europeias, ficando, desse modo, pessoas de etnias diferentes convivendo em um mesmo país. Do mesmo modo, há o caso de pessoas de uma mesma etnia separadas pelas fronteiras feitas com uso de uma régua em um mapa por colonizadores europeus. Por exemplo, Angola, ex-colônia portuguesa assim como o Brasil, é um país formado por inúmeros grupos étnicos. Sendo assim, embora o português seja o idioma oficial de Angola, as línguas mais faladas no país são as de origem africana (que são centenas), sendo que o português é mais utilizado para comunicação entre grupos étnicos distintos ou em documentos e eventos oficiais.

Esse conhecimento sobre a multietnicidade do continente africano é fundamental para entendermos o comércio de escravos. Muitas vezes aparece em documentários de grupos midiáticos importantes que havia negros perseguindo negros. Se conhecermos as diferenças étnicas do continente africano, vamos entender que os portugueses, que colonizavam o Brasil e vendiam escravos para os latifundiários produtores de cana-de-açúcar na sua então colônia, aproveitavam-se dessas disputas étnicas existentes no continente africano para escravizar a população do continente. Eles faziam alianças com algumas tribos existentes no litoral de locais como Angola, Guiné ou Moçambique, e compravam seus prisioneiros de guerra através do escambo, utilizando principalmente produtos como rum, fumo e cachaça. Muitos desses prisioneiros de guerra eram, inclusive, nobres ou reis.

É fundamental ressaltar que a escravidão existente nas Américas era uma instituição europeia comum nas sociedades da Grécia e de Roma, sendo o próprio termo escravo tendo a mesma raiz etimológica de eslavo, o qual se referia aos povos de leste europeu que eram escravizados pelos romanos por não fazerem parte do vasto território do Império. Evidentemente, a existência de escravidão nos grandes impérios europeus não poderia justificar uma suposta escravidão em massa da população branca em um continente distante, então por que a existência de reinos escravistas na África com territórios bem menores do que o do Império Romano está sendo utilizada para justificar a escravidão dos africanos?

Por isso, é fundamental conhecermos melhor a História da África. Embora a cultura africana tenha influência forte na cultura brasileira, conhecemos pouco sobre ela. Para essa mudança, é necessário que haja incentivo a pesquisas sobre o assunto e possibilitar que os professores, tanto de escolas públicas como também particulares, tenham cursos de formação para que possam conhecer um pouco mais sobre a África. Sei das limitações existentes inclusive nas universidades, e da falta de bons materiais, o que peço é um começo de mudança na postura dos gestores em educação. É apenas com conhecimento e estudo que vamos conseguir mudar esse cenário de desconhecimento sobre o continente africano e sua diversidade cultural evidente. Devemos estar todos na luta para que a África tenha o mesmo espaço que a Europa tem na mídia e nas escolas brasileiras.

Ígor Andrade Cardoso é especialista em ensino de História e de Geografia.

 

*As publicações nos espaços de opinião são responsabilidades de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Diário de Viamão.

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