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Opinião

Foto na Aldeia Mbyas Guaraní, em Viamão

A Cultura ainda pulsa | Viamão: entre barulhos, sons, ruídos e remanso

Publicada em 27/11/2020 às 00h| Atualizada em 27/11/2020 às 12h54

A contribuição dessa semana é uma reflexão de uma amiga que mora na Santa Isabel, a Kelly Bernardo Martinez, mestranda em Processos e Manifestações Culturais pela FEEVALE, arte/educadora e pedagoga.

Boa leitura!

 

Nesse ano, momento ímpar em nossa história, um vírus de capacidade letal invadiu nossos lares e provocou um colapso a nível mundial. A COVID-19 alterou não apenas a rotina das pessoas, ela tirou vidas e com tudo isso, às duras perdas, estamos aprendendo a olhar as pessoas e as situações com outra perspectiva.

Ouvi relatos de pessoas que se isolaram em suas casas, e as que aproveitaram o tempo para colocar coisas no lugar. Outras que passaram a trabalhar home office e até às que começaram a pintar e cozinhar. A criatividade do povo brasileiro é realmente surpreendente. Muitas pessoas criaram novas formas de habitar, trabalhar e prosperar. Outras, porém, no que tange à cidadania, a empatia e alteridade, nem sempre souberam ser gentis. Citarei a seguir, alguns relatos a fim de que possamos questionar alguns de nossos hábitos e como eles são capazes de afetar a harmonia social.

Há alguns anos, foi restringido, como recurso de propaganda política, a fixação de cartazes, faixas e materiais físicos, pois eles se acumulavam em postes, paredes e muros, ocasionando lixo, entupindo bueiros, obstruindo a via pública e gerando poluição visual. No entanto, a poluição material e visual foi trocada pela poluição sonora. Nos dias 7 e 14 de novembro de 2020, a Avenida Liberdade, na Santa Isabel, foi tomada de pessoas aglomeradas e incontáveis carros de som, que se chocavam numa disputa do veículo mais barulhento possível. Foram mais de oito horas de poluição sonora, sem nenhum tipo de fiscalização por parte do Estado, do município ou dos órgãos que fiscalizam as campanhas eleitorais.

A disputa do “quem grita mais alto” acabou por refletir um comportamento agressivo e reflexo do que chamei de falta de empatia social. A visibilidade às custas da selvageria de adentrar  em nossos lares sem permissão. Até quando vamos aceitar o vizinho que ouve música alta, a qualquer momento do dia, negando a existência do outro e de suas preferências musicais? Até quando vamos negar que existem crianças recém-nascidas que são afetadas pelo excesso de ruídos, ou pessoas com necessidades especiais que, em casos específicos e severos, sentem-se muito desconfortáveis com determinados ruídos. Será que idosos, pessoas em repouso ou que trabalham durante a noite não precisam descansar durante o dia? Onde foi parar a nossa capacidade de se colocar no lugar do outro? De estar sensível a isso?

João Francisco Duarte, em “A Crise de Nossos Sentidos” (2001), diz que o desenvolvimento tecnológico promoveu certa regressão nos planos social e cultural, que acarretou em um “embrutecimento das formas sensíveis de o ser humano se relacionar com a vida” (2001, p.69). O mundo moderno a que ficamos acostumados gera tal crise, pois entra em conflito com o pensar e o agir em voga. Para Duarte (2001, p.68) “a crise que ora acomete o nosso estilo moderno de viver precisar ser vista, diretamente vinculada a uma maneira de compreender o mundo e de sobre ele agir (...)”.

Nunca estivemos tão dormentes de sentidos. Naturalizamos o barulho e estamos, inconscientemente, somatizando em nossa saúde, descontando no trânsito, com os animais e com as pessoas. A pandemia nos mostrou as consequências do isolamento, mas já faz algum tempo que perdemos a sensibilidade para com o outro, a empatia e a noção de alteridade.

Não foi apenas no período eleitoral que isso ocorreu. Quantos carros de som transitam diariamente nas ruas de Viamão? Certamente você já os naturalizou, mas não devia. Devíamos cobrar dos órgãos públicos, uma fiscalização e regulamentação deste tipo de publicidade. Qualquer pessoa pode adaptar um veículo e fazer a sua divulgação sonora. Logo, são incontáveis os autônomos que circulam na já citada Avenida Liberdade, invadindo-nos sem qualquer consciência ou consequência.

Obviamente as pessoas e lugares não promovem apenas ruídos e barulhos. O município possui ecovilas, templos budistas, centros holísticos, reservas naturais, dentre outros espaços que empáticos, promovem a conexão com a natureza e com a harmonia social. No entanto, não é possível aceitar que apenas nestes lugares, a harmonia social possa estar. O perímetro urbano também precisa se nutrir de boas práticas cidadãs. E como isso é possível? Criando bibliotecas, museus, galerias, pontos de memória, centros turísticos, conchas acústicas, escolas de música. Isso mesmo, espaços de música, pois é preciso saber diferenciar ruído, barulho e som.

É preciso alertarmo-nos para o que cada um deles provoca em nós e de que forma corroboram ou não, para a harmonia social. Que em breve tenhamos e façamos espaços adaptados, empresas regulamentadas, publicidade e organizações fiscalizadas. Cada um fazendo sua parte, na promoção de som(s). Sons empáticos, responsáveis, ecléticos e plurais.

* DUARTE JUNIOR, J. F. O Sentido dos Sentidos: a educação (do) sensível. Curitiba: Criar Edições, 2001.

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Cristiano Abreu

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