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Crônica em tópicos

O mundo de Alice | O espinho da Rosa, um alerta, um relato, uma história - Relação abusiva Parte I

Publicada em 22/03/2021 às 00h| Atualizada em 17/05/2021 às 22h02

Uma relação abusiva não tem aviso prévio, ela talvez seja até fácil de reparar, para quem está de fora, mas para quem está vivendo-a, um caos sutil e ambíguo. Ora romântico, ora horroroso. Ora, romântico, ora horroroso. E essa ambiguidade te sequestra, até você não saber mais se é bom ou ruim, se os amigos estão certos ou se na verdade você é louca. As pessoas te alertam minimamente, mas não importa, ninguém importa nesse momento. O amor prevalece. A adrenalina daquela paixão que rompe barreiras, ultrapassa o inimaginável. Tudo para ficar com ele, tudo para ama-lo, tudo para possuí-lo.

Senti necessidade de escrever e contar. Para alguém, para mim, para as mulheres que eu amo e para as que eu não conheço e jamais conhecerei. Quero contar como ele era, ou melhor, como me parecia. Eu vi nele a segurança que me faltava na época, a estabilidade que não havia na minha vida naquele momento, o porto seguro, a chance de algumas horas fugazes de sossego e longe dos meus próprios pensamentos. Agarrei-o, com seu jeitinho despreocupado e rebelde com a vida, com os próprios pais e com o mundo. Vestia-se de preto e só ouvia bandas pesadas, cujas quais eu particularmente nunca gostei muito e não gosto até hoje. Sempre de cara fechada, virado para o lado B da coisa, como diria minha mãe. E eu, tão inexplicavelmente diferente de toda essa energia escura, mas ao mesmo tempo, tão familiarizada com todo aquele caos, entrei de cabeça em uma paixão fadada ao fracasso.

Nunca combinamos de verdade, em nada. E lembro-me bem de que com ele eu nunca me sentira um indivíduo, quando estávamos juntos eu sentia algo mais parecido com “nós”. O que nós gostamos e o que nós vamos fazer, o que nós sonhamos para o nosso futuro e o que não desejamos de modo algum para nós.

Mas não se engane, nada é tão ruim assim de cara. As palavras bonitas, os elogios e até as flores arrancadas para te dar no caminho de casa. A rosa que ele compra, a pizzaria que ele te leva, ele carrega a sua mochila. Ele te leva para casa, de noite, no escuro. Ele te protege. Ele sabe do que você precise, mas detalhe, só ele sabe do que você precisa. Ninguém no mundo pode te apoiar tanto quanto ele, ele vai estar lá, sempre que você precisar. Ele pode fazer coisas como tomar muito vinho e bater a porta, socar a parede ou gritar com você. Ele pode te trancar te mandar ir embora da casa dele, e depois te dizer que não havia chances de você ir embora porque na verdade, a casa estava trancada. Ele pode te dar alguns puxões no braço e pode até machucar um pouquinho. Mas não se engane, as suas amigas que te questionam vez ou outra sobre essa relação, aquelas putas, esse é o apelido carinhoso que ele deu a elas, elas não sabem de nada. Os seus amigos que acham que esse seu namorado é muito rude com você, não seja boba, eles todos só querem um pedacinho de você, estão com inveja da sua relação de contos de fadas.

O seu ciclo de amizades e a sua família, não sabe de nada sobre você, ele sabe. O seu príncipe vestido de cores escuras, de falas escuras e atitudes hostis, ele sim sabe o que vai ficar bom para você vestir, comer e até falar. Xiii, não grite, não fale muito alto, os príncipes não gostam de moças que tagarelam demais. Eu me perdi, naquela época lembro-me de ter sido uma namorada exemplar, do tipo que faz muitas declarações de amor e se arrepende, pede para voltar e pergunta para Deus o que fez para merecer.

O príncipe figurado no qual estamos falando, emanava uma energia de cinismo quando estava na frente dos outros, era simpático e até debochado. Regojizava-se porque sabia que possuía meus encantos, dono das minhas fraquezas, manipulando meus sentimentos. Eu corria para ele para desabafar sobre os demônios, ele que fazia boa parte do inferno em minha vida. Achávamos graça e fazíamos graça de nossas brigas recorrentes e doentias, pensávamos que era amor, o tão desejado amor. Aquele que tudo aguarda, tudo perdoa, tudo crê. Era nesse amor que pautávamos nossa dor, e eu permanecia. E chorava, chorava muito mais do que ria, e não percebia que já havia afogado havia tempo.

Uma história que continua...

Com o carinho de uma amiga e irmã, para outras amigas e irmãs, Alice.

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Cristiano Abreu

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