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Crônica

O mundo de Alice | Conversa de bar - Realização pessoal: o que significa realizar-se na vida, para você?

Publicada em 28/06/2021 às 00h| Atualizada em 01/07/2021 às 16h30

Outro dia estava conversando com um amigo, que está mais para mestre ou guru. E numa de nossas pautas, questionei-me sobre realização pessoal, sobre sentir-se satisfeito com a própria vida. Perguntei a ele se é possível chegar em um ponto em que estaremos plenos e abastados, totalmente felizes com o nosso presente. Perguntei a ele se é possível chegar em um ponto em que os desejos cessam, e finalmente podemos descansar em um berço esplêndido de realizações e conquistas.

Compartilhei com ele que não me sentia assim quase nunca, que me sentia de modo contrário, sempre à espera de mais um acontecimento e mais uma conquista. Um sentimento de insuficiência misturado com uma curiosidade e ambição de querer sempre mais da vida, mais do que ela já está me oferecendo.

Então, esperando por uma resposta clichê a respeito desse questionamento, fui surpreendida com uma reflexão que me inspirou a montar essa “entrevista” ou “conversa de bar”. Ele respondeu-me que na verdade a realização pessoal é algo muito individual do ser humano, e que o próprio termo “realização pessoal” foi algo construído e imposto pela sociedade para que nos coloquemos sempre em uma linha de fogo, de competição em uma espécie de “sucesso” inalcançável.

Consumindo produtos e almejando coisas que muitas vezes nem representam nosso verdadeiro eu, somos induzidos a querer mais e mais, pensando que assim nos sentiremos mais completos ou com uma sensação de “ter vencido na vida”. E o que ganhamos em troca? Mais insatisfação.

Ele me disse que a realização pessoal pode ser muitas coisas, dentro de cada um e dentro de cada contexto. Mas que também é importante que na vida nós estejamos sempre abertos e em estado de curiosidade. Não como uma busca incessante, mas com o olhar atento ao mínimo detalhe, que pode vir a ser uma grande realização.

Com essa conversa, gostaria de mostrar a vocês que realização pessoal pode se dar por meio de muitas coisas, e não apenas adquirir o carro do ano ou passar na faculdade dos sonhos. A realização pessoal é muito mais profunda do que se vende por aí, e a verdade é que enquanto seres pensantes e terrenos, nunca estaremos plenamente satisfeitos com a nossa vida.

E tudo bem, o importante é não se consternar com essa sensação, entender que é natural e buscar sempre algo novo que possa comover o nosso olhar e trazer um pouco mais esse sentimento de encantamento pela existência.

Para a nossa conversa de bar, chamei quatro pessoas queridas que toparam expor seus pontos de vista a respeito de realização pessoal. Procurei pegar pessoas em contextos diferentes de vida, para que possamos ver esse contraste e encontrar essa singularidade em cada resposta sobre um questionamento tão profundo, e tão comumente banalizado pela mídia.

A primeira pessoa com quem conversei se chama Karine. Ela tem 32 anos, é mãe de três meninas e sempre as criou sozinha. Além de mãe, Karine também é filha, namorada, irmã e amiga. É um exemplo de mulher que possui múltiplas facetas e múltiplos sonhos. Quando questionei Karine sobre o que ela considerava realização pessoal, fui surpreendida com uma frase: “99% das respostas que uma mãe daria seriam relacionadas aos seus filhos, casa e conforto, estabilidade financeira, mas quero dar uma opinião pessoal.” Com essa fala, pude perceber ainda mais o quão singular são as ideias em cada um de nós.

A resposta de Karine foi essa: “Realização pessoal, para mim é ter saúde, viver plenamente ao lado de quem amo e ser inspiração para alguém. Impactar algumas vidas e ser lembrada, como eu lembro da minha inspiração, meu avô”. Simples, profundo e único. Um significado que não se pode comprar e que não se pode vender, realizar-se para Karine, é muito mais que comprar um objeto caro.

A segunda pessoa com quem conversei foi o Adilson. Ele tem 53 anos, mora sozinho e é pai de três crianças. Também representa mais do que a figura de um pai, é leitor assíduo e caixinha de muitos sonhos e pensamentos que talvez nunca cheguem à compreensão de terceiros.

Adilson respondeu-me algo mais subjetivo e reflexivo: “A realização maior da vida é o entendimento sobre todos os nossos erros e acertos e o modo como lidamos com isso”. Para ele, sentir-se realizado é sentir-se em constante crescimento e evolução, buscando satisfação na maturidade e na clareza cada vez maior de pensamentos.

Eu me pergunto, em qual loja vende essa realização pessoal? Não sei, mas com certeza podemos começar pelos livros...

A terceira pessoa com quem conversei foi o Giandro. Ele tem 20 anos, é estudante de fotografia, jovem, cheio de sonhos e idealizações para o próprio futuro. A resposta foi essa: “Para mim, realizar-se na vida é continuar vivendo tudo o que eu tenho direito e sentir tudo o que está incluso neste pacote. Buscando estar sempre rodeado de pessoas que me fazem bem. Além disso, alcançar meus objetivos, criando novos propósitos e buscando novas experiências que me façam sentir ainda mais realizado”. Na resposta do Giandro, encontramos intensidade, curiosidade e muita busca. Somos a juventude que busca, que vive e que anseia. Ainda assim, nossos desejos são muito próprios, e o significado que eles têm pertencem apenas a nós mesmos e ao nosso universo.

A quarta e última conversa foi com a Bianca. A deixei para o final porque me identifiquei com o seu relato e percebi que ela ilustra de modo assertivo e único a essência desta coluna. Bianca tem 20 anos, é jovem, estudante e brilhante em vida e inteligência. Perguntei a Bianca sobre o que seria realizar-se na vida para ela, considerando-a uma pessoa mais cética a respeito dos grandes questionamentos da vida.

Ela me disse: “Realização é algo complexo, né? Estar realizado é aceitar que está tudo bem sentir, independente de qual seja o sentimento. Não consigo ver a realização pessoal como algo que vou conquistar, ou que ainda vai me acontecer, como um emprego por exemplo. Porque tudo isso é cíclico, quer dizer que sempre vamos estar em busca de algo a mais. Com o ato de permitir-se sentir e saber que está tudo bem passar por cada fase, podemos transformar o mundo de alguma forma, não digo algo grandioso mas algo que comece por nós. Então acho que é isso, poder sentir e saber que está fazendo a diferença de alguma forma”.

Concluo essa dissertação sobre realização pessoal com essa profunda e inteligente compreensão, que não é minha. Karine, Adilson, Giandro e Bianca são pessoas como eu e você: que possuem sonhos, idealizações de mundo. Jovens, pais e mães, filhos e filhas, amigos e amigas de alguém. Pessoas que carregam consigo muito mais que diplomas, currículos lattes ou carros do ano. Pessoas que carregam consigo uma infância única, uma história única e uma compreensão única sobre a felicidade e a realização.

Não se pode vender algo que já está dentro de nós, algo de valor inestimável e incomparável: tudo o que somos, nossos sonhos, nossos desejos e o que de fato consideramos que seja a realização pessoal. E você, está em busca incessante ou está em busca do equilíbrio?

Com carinho, Alice.

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Cristiano Abreu

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