Quinta-feira, 06 de AGOSTO de 2020

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Opinião

Claudio Brasil: Desembargador ’analfabeto’ expõe drama da Educação no Brasil

por Claudio Brasil | Publicada em 20/07/2020 às 00h| Atualizada em 21/07/2020 às 10h37

Sempre que se avalia os mais críticos problemas enfrentados pelo Brasil em sua caminhada histórica de mais de 500 anos logo nos vem à mente as carências da Educação. No Brasil, os índices educacionais se mostram assustadores, são mais de 11 milhões de pessoas que não conseguem reconhecer um texto escrito em sua própria língua. Trata-se do Ensino Fundamental, uma entidade relegada, desprezada e esquecida pelos “desgovernos”.

A situação fica ainda mais tétrica quando consideramos os chamados analfabetos funcionais. Considerados capazes de identificar palavras, números, assinar o nome e ler frases, não conseguem, porém, realizar tarefas que exijam compreender um parágrafo de um texto simples, como um recorte de jornal sobre seu time preferido. A proporção de analfabetos funcionais no Brasil pode chegar 38 milhões de pessoas, conforme informações da Agência Brasil.

Normalmente esses casos refletem um problema estrutural básico, a exclusão social, ou seja, está ligado às classes mais desfavorecidas e pobres da nação. Entretanto, diante da guerra violenta contra o Coronavírus, que já ceifou quase 80 mil vidas só no Brasil (ao terminarem de ler a coluna esse número certamente terá ultrapassado os 80 mil) pode se notar que a falta de educação atinge níveis muito mais críticos. Abrange classes sociais mais altas e pode colocar em risco a vida de muitas pessoas.  

Durante o final de semana tivemos mais um triste exemplo desse evento que se expande pelas ruas e avenidas. Circulou pelas plataformas da Internet um vídeo onde o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, do Tribunal de Justiça de São Paulo, humilha um guarda municipal de Santos, região litorânea. Ao ser confrontado pela Guarda Municipal por andar pela rua sem utilizar a máscara protetora, um acessório obrigatório na cidade devido a um decreto municipal em vigor (notem que já havia sido necessário a imposição do decreto para ressaltar a importância do equipamento) ele abandonou a toga e mostrou sua educação ralé. 

Siqueira deixa claro ao guarda municipal que já havia sido parado por outra guarnição em outra ocasião. “Peguei amassei e joguei, assim, na cara dele. Você quer que eu jogue na sua cara”. Logo após ele ameaça ligar diretamente para o secretário de segurança de Santos, Sérgio Del Bel. Retira o celular do bolso, como fosse um criminoso sacando um revólver ou uma faca em alguma zona deflagrada e cumpre a ameaça. Verdade! Ele ligou para reclamar da abordagem diretamente para o secretário de segurança. Quantos brasileiros têm esse direito?

Ele fala com Del Bel e segue demonstrando toda a arrogância e falta de trato de quem está acostumado com as benesses dos cargos públicos de alto escalão. Segue a humilhação ao chamar o agente de “analfabeto”, tratando o secretário ao telefone como fosse um vassalo que precisaria resolver um problema de Vossa Excelência, o “desembargador analfabeto”. Utilizando-me do sem timidez “juridiquês” lhes pergunto, quem realmente é o “analfabeto” nessa situação, o acusado (agente municipal) ou o acusador (desembargador)?

Ao final da abordagem, demonstrando total falta de educação, o desembargador pega a multa  da mão do guarda e atira ao chão, mesmo depois de ser educadamente instruído que seria multado também por “despejo em via pública”. Mas, como analfabeto funcional que não compreende a situação e não sabe medir riscos, atira ao chão o documento rasgado e segue sua caminhada sem máscara, demonstrando total descaso com a cidade, o bem público e a população.

Del Bel já deixou claro que duas multas serão cobradas do desembargador. Uma relativa ao uso da máscara e outra devido ao despejo em via pública. Esses casos deveriam servir de exemplo. E o Brasil está precisando de bons exemplos. A exigência sobre o cumprimento das leis não deve se restringir às populações das classes mais pobres. Vale lembrar que o salário de um desembargador é de cerca de R$ 30 mil reais por mês, mas pode alcançar a casa dos R$ 80 mil, R$ 100 mil, em algumas localidades, somando as já referidas “benesses” . Siqueira argumentou em nota que foi vítima de “armação” e que está sendo “perseguido”.

Volte aos bancos escolares para se educar desembargador e ao menos ajude a diminuir os índices de analfabetismo funcional de seu país!

Cristiano Abreu

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